San Francisco murals

•fevereiro 8, 2010 • Deixe um comentário

Mural no Clarion Alley - Jet Martinez

Um dos passeios que mais curti fazer durante minha viagem para São Francisco, no ano passado, foi visitar o Mission District, bairro onde se concentram os moradores de origem latina, em especial os mexicanos. Foi lá que tive a oportunidade de fotografar uma quantidade infindável de murais.

Culture Contains the Seeds of Resistance (Miranda Bergnman e O'Brian Thiele - 1984)

Eles eram especialmente bonitos. Encontrei desenhos feitos há muitos anos, um deles de 1984 que está praticamente intacto, apenas deteriorado pela ação do tempo. Há muitos becos que são famosos pelos murais e que valem o passeio, como Balmy e Clarion Alley. Muitos dos desenhos me chamaram atenção pelo engajamento político e a ligação com a cultura hispânica. Não poderia ser diferente, dado que esse pedaço de terra já foi do México e hoje eles vivem na região como imigrantes. Mas os temas variam bastante, sendo possível ver tanto imagens do candomblé quanto de imagens sagradas do oriente.

Naya Bihana (A New Dawn), mural localizado no Balmy Alley, pintado por Martin Travers em 2002.

Fiquei comovida com os traços de Joel Bergner, artista de El Salvador que reconheci em pelo menos três pontos diferentes do bairro. Ele fala da saudade, insere cenas de sua terra, da mulher e dos filhos que deixou para trás. Há também referências à capoeira, o que me fez suspeitar que ele fosse brasileiro até encontrar sua assinatura em um dos painéis. E foi só pesquisar na internet para descobrir que o mural Under the Sun of the Orishas, que ele desenhou com imagens de candomblé e capoeira, era uma homenagem à Casa de Candomblé Mãe Conceição, em Salvador, na Bahia.

Un Pasado Que Aun Vive, mural localizado no Balmy Alley (Joel Bergner - 2004)

O passeio pela região também vale pelas casas vitorianas, que estão presentes em toda São Francisco. Foi lá que fotografei uma das mais bonitas que vi durante a viagem.

Casa vitoriana - Mission District

Outras imagens dos murais podem ser vistas no meu flickr.

deixar morrer

•janeiro 31, 2010 • 2 Comentários

Então ele se foi. Estou feliz que tenha completado sua jornada cercado da família e dos amigos. Estivemos todos à sua volta essa semana, em que ele ficou de cama se preparando para partir. Foi sofrido para ele, e por esse motivo desejamos que fosse breve. Quisemos que ele vivesse seus últimos dias em casa, em especial para que minha avó pudesse estar ao seu lado.

E que força minha avó. Que clareza. O tempo inteiro ela estava lá, aceitando o fechamento desse ciclo e agradecendo que ele estivesse indo antes dela.

- Minha hora chegou há muito tempo, minha filha, mas eu não podia deixar ele passar por isso.

Ela me disse isso um dia antes dele partir, mas não era novidade. Foram 74 anos de casamento e meu avô era apaixonado pela minha avó desde os 9 anos. Loucamente. Uma adoração sem tamanho. Quando ela adoecia, sua cara murchava e não havia nada que o trouxesse paz enquanto ela não ficasse boa.

Consegue imaginar o que é viver 95 anos?

Não fiquei exatamente triste com sua partida. Ele morreu cercado de amor, com a presença de filhos, netos e amigos. E de sua mulher, que beijou sua mão, acariciou seu rosto e com a voz calma lhe disse que ficasse tranquilo e fosse em paz, pois ela estava a caminho logo mais para encontrá-lo.

Eu senti paz e gratidão pela oportunidade de ter sido sua neta, de ser parte de sua história, de ter aprendido tanto com esse homem. Ele, que desbravou o mundo, redesenhou seu destino ao deixar para trás a vida na roça em Murici, em Alagoas, e construir essa família de treze filhos, trinta netos e vinte e tantos bisnetos – até então.

E foi bela a homenagem que meus tios fizeram a ele no velório. Não podia faltar a cantoria, claro. Meu tio Rodrigo pediu que aceitássemos com alegria a morte desse homem, pois a morte é um renascimento, já que é o encontro com a luz, com a verdadeira vida.

Alguém cantando (Caetano Veloso) – a música foi oferecida pela minha tia Anajas, mas o coro foi geral.

Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão

a última fotografia

•janeiro 30, 2010 • 1 Comentário

hoje eu sonhei com meu avô

•janeiro 28, 2010 • Deixe um comentário

Ele estava deitado em sua cama, muito doente e no fim da vida, quando recebeu um presente. Ao abrir o pacote, tirou dele um colar lindíssimo, cheio de pedras coloridas, que colocava em seu pescoço. Em seguida, ele se levantava, ainda curvado, porém sorridente e dizia:

- Estou me sentindo bem melhor.

Assim, caía nos braços de minha prima, que desatava a chorar de alegria.

O dia amanheceu chuvoso e cinzento

•janeiro 25, 2010 • Deixe um comentário

O dia amanheceu chuvoso e cinzento porque você foi embora e eu precisei partir na sua ausência. Deixo seu apartamento desejando ser uma pequena flor no seu jardim. Quisera eu poder me abrir para você mais uma noite sabendo que não será a última. Quisera eu ser regada e acarinhada por você repetidas vezes, ao longo dos dias por quantos dias me quiser.

Deixo a cidade levando um pedaço seu. Deixo na cidade uma parte de mim.

Como as águas que descem uma cordilheira, percorro cada canto do seu corpo. Eu me entrego a cada sorriso, a cada olhar, a cada toque que me oferece e me permito viver. Fecho os olhos em desespero, numa tentativa pueril de parar o tempo.

Seria eu capaz de parar o tempo?

Lembro de versos do Cartola que gostaria de ter soprado em seus ouvidos. Hoje não conseguiria cantá-los. Hoje quero o silêncio. Olho para a janela, ouço nossas risadas enquanto mergulhamos entre as nuvens e sobre elas ensaiamos alguns passos de dança. Enxugo essas lágrimas bobas que me escapam e tento acreditar que sigo por aí. Sorrio. Estamos tão alegres e bonitos de se ver assim, dançando entre as nuvens…

Você me disse que o amor pode tudo

•janeiro 25, 2010 • Deixe um comentário

Eu nunca me esqueci. E decidi levar para sempre comigo. Aqui dentro.

Gosto do seu jeito calado

•janeiro 24, 2010 • Deixe um comentário

De vez em quando, ele solta frases inesperadas, falando com muita franqueza o que acredita. Sua sinceridade me emociona e sinto sua beleza transbordando de dentro. Eu o ouço com cuidado e tento guardar comigo suas palavras.

Eu gosto de guardar palavras.

ele não me olha nos olhos

•janeiro 23, 2010 • Deixe um comentário

Diz que são muito fortes e que podem me machucar.

Digo que é mentira.

Você tem medo que eu me apaixone.

Não é não.

Gosto do jeito como você me olha nos olhos, sempre desvia o olhar ou está de óculos escuros.

Por que não me deixa olhar seus olhos?

Porque são muito fortes. Todo mundo fala isso. Dizem que eu sou muito transparente, eles me revelam.

Você acha que meus olhos me entregam, que sou transparente?

Você me vê através deles.

Sim, acho que sim.

E não é bom?

Sim, você parece feliz quando está comigo.

E eu estou, muito.

Que bom.

não tem como colar o que sobrou não

•janeiro 19, 2010 • Deixe um comentário

esses pedaços espalhados aí no chão

não são mais seus

só mesmo as gotas que se atiram dos seus olhos

essas que você deixa escapar

enquanto tateia cada um deles

se procurando

essas são suas

não adianta tentar salvar

as imagens que te fogem

é hora de acordar, mulher

o que te dá asas?

•dezembro 4, 2009 • Deixe um comentário

IV Mostra Cultural de Paraisópolis