
tempo
•Outubro 17, 2009 • Deixe um comentário
Publiquei no Facebook essa foto que fiz na semana passada e um amigo ficou tão impressionado com ela que publicou no seu perfil. A partir daí, seus contatos enviaram comentários e ele me passou por email um texto que recebeu de um amigo divagando sobre minha foto.
Ver-tiginosa.
Sem duvida, a foto é linda. Linda porque instigante. Aqui está a Imagem como imaginário. De cara ela fala sobre o que ela esconde e quando ela revela, o que ela nos mostra e devolve já é diferente. Mudou o espaço e o tempo. Não é verdade que essa foto, como se apóia em reflexos, constrói outros planos e perspectivas e assim a imagem excita a imaginação? Ao mesmo tempo que ela parece ter uma estrutura clara e racional, ela, no plano da narrativa, nos joga no vazio e no subjetivismo. Ela dilui e abstrai os corpos. Esta imagem vive de fragmentos de imagens. O que me atraiu também foram alguns detalhes: a mancha líquida vermelha acima da pomba – a primeira e a única cor. Abstração. Os pés das duas pessoas, que já não são pontos de apoio. O reflexo, que domina a área, abre as janelas do inconsciente, do impensável e do impensado. Aqui, não adianta procurar um sentido. Aqui, o ser ideal, por que incompleto, não está aqui ou além, ele é outro. É outro também porque são contrastes de luz, são silhuetas. O maior momento é o plano invertido que o reflexo cria e que, depois nos devolve a imagem das figuras em dissolução no alter-reflexo. Esse plano ocupa mais de 2/3 da área da imagem e começa na linha dos pés das figuras. Mesmo as ilhas opacas de gris, terra ou areia se integram nesse plano descendente e invertido. A pomba e os reflexos das figuras têm o mesmo teor, cor e valor, por isso a pomba não quebra o processo reflexivo. Ela é o pivô do desdobramento. Esse plano reflexivo, ao meu ver é o que introduz o Tempo nesta imagem e a outra dimensão que ela tem. Se você inverter essa foto, vai ver como os valores da pomba continuam íntegros em seu volume, até mesmo mais tridimensionais porque os seus contornos no reflexo estão diluídos (e o reflexo da pomba está ligado a ela), ao passo que o reflexo das figuras não. O reflexo da pomba cria dois planos possíveis de perspectiva, planos em X paralelos ao plano horizontal. O reflexo das figuras humanas, por estar distante e seccionado eles são bi-dimensionais e mais auráticos (contrariamente à imagem da pomba, que na realidade é contrastado e bidimensional mas seu reflexo é o oposto) – revelando assim, talvez uma característica e particularidade dos humanos: a alma. E essa pomba não voa, anda, ela tem peso e corpo. Pela pomba apresenta-se a qualidade do figuravel. A imagem da pomba é “tirânica”, ela é um índice, nos coloca (impõe) na presença do ser da “cor” e antes mesmo de nos mostrar o volume dos corpos. Essa pomba, a única forma íntegra e terrivelmente figurável e figurativa, ainda apoiada pela imagem invertida do prédio, é concreta, presente. A foto foi feliz pois o clic é o momento preciso em que os tons, a luz, os planos se integraram de tal forma que possibilitaram tudo isso, e acaba sendo um comentário exatamente sobre a construção da Imagem, que apenas a Fotografia é capaz de dizer, e que implica o olhar de um sujeito, uma história, suas divisões, seus fantasmas… Uma metafísica do visível, do legível e do invisível.
Clemente Hungria, professor de História da Arte em Londres
novo blog?
•Outubro 11, 2009 • Deixe um comentárioPois é, agora não sei o que fazer com esse espaço recém criado. adorei, mas não conseguia postar músicas e agora descobri um cantinho onde posso fazer tudo isso, com formato moderno, onde posso seguir meus contatos. Pena que ainda não encontrei quase ninguém por lá. Mas segue o endereço. Acho que lá vai ficar mais com reflexões sobre música e fotografia. Aqui continua, vamos ver como vai ser…
cidade do méxico
•Setembro 22, 2009 • Deixe um comentário11 anos atrás minha irmã mais velha se mudou para a Califórnia. Casou, teve filhos e nunca mais cogitou a idéia de voltar para o Brasil. Esse ano, num impulso de saudades, decidi passar pela primeira vez meu aniversário ao lado dela. A última vez que a visitei foi em 2002, o que contribuiu para que ela nem sequer imaginasse a possibilidade desse encontro, que tornei surpresa.
Aproveitei os preços mais baixos das passagens e só depois de adquirir o bilhete de preço mais acessível que percebi o melhor da festa: passaria 12h na Cidade do México, em conexão com São Francisco. Tempo de sobra para um passeio que me desse uma mostra da cara desse país que sempre tive muita curiosidade de conhecer.
Foi assim que, na véspera do meu aniversário de 29 anos, desembarquei na Cidade do México às 7h da manhã. Imediatamente troquei 20 dólares pela moeda local e recebi 244 pesos! Providenciei um locker no aeroporto para deixar minha mochila com laptop e equipamentos mais pesados da câmera fotográfica e peguei um ônibus até o metrô.

Sempre adorei os grandes centros urbanos. Algo dessa bagunça metropolitana me fascina, como se a desordem autorizasse minhas confusões internas. Um estranho sentimento de alívio e intimidade ocorre rapidamente, como se já conhecesse aquele espaço que conversa tão bem com meu íntimo. É como me sinto em São Paulo e o que experimentei conhecendo Nova York e Buenos Aires. É o que move minha vontade de conhecer Londres, Bogotá, Berlim, Calcutá…
Não era diferente com a Cidade do México. Tive tempo de dar uma folheada no guia apenas no avião, pois só consegui o visto mexicano no dia da viagem. Tinha em mãos um email de um primo com algumas dicas de lugares para visitar, roteiro que segui e incrementei com improvisos e leituras do guia.

Já no caminho para Zócalo, a praça central, pude confirmar a observação do guia para o comportamento machista dos homens de lá. No ônibus, um jovem mexicano se mostrou extremamente solícito. Também desceria no metrô e foi muito gentil em me pagar uma passagem e orientar meu passos entre as baldeações inúmeras do metrô, que tem uma quantidade gigante de linhas que se entrelaçam, abrangendo boa parte do mapa da cidade. Chegou a me apontar a escadaria que levava aos vagões de trem reservados apenas para mulheres e crianças, opção que nem todas as passageiras adotavam. Muitas encaravam os vagões mistos. Quando perguntei ao rapaz o porquê da divisão, explicou que havia muito “touching” nos vagões mistos.

Não demorou muito para eu perceber o quanto aquela afirmação era verdadeira. Tanto ele quanto outros caras que se aproximaram de mim durante meu passeio breve pela cidade exibiram sorrisos largos, muita simpatia e mãos grudentas. Os mexicanos gostam de tocar a gente, aquilo me incomodou um pouco, mas soube contornar bem a situação.

Já na Plaza de la Constituición, conheci a Catedral Metropolitana, que além de ser uma das maiores da América Latina, demorou quase 300 anos para ser concluída. Por conta disso, mistura estilos arquitetônicos e de decoração interna que vão do estilo barroco ao neoclássico.

A praça estava tomada por tendas, infelizmente, pois tira a dimensão de seu tamanho e impacto. Um giro pelos arredores e pude notar o tom amarronzado do Centro Histórico, com suas construções de pedras – pedras que foram aproveitadas da destruição da capital asteca pelos espanhóis, diga-se de passagem – e semáforos amarelos.

Algumas quadras de lá, na Alameda Central, subi na Torre Metropolitana, o arranha-céu que proporciona a visão 360 graus da cidade. Nem um pouco próximo do charme do nosso Banespa por fora, porém com uma vista fantástica que não deixa a desejar.

Pode-se ver do alto o Palacio Bellas Artes, concebido no início do século XX para ser o teatro nacional, unindo estilo neoclássico e Art Nouveau. Por dentro, é revestido de mármore rosa e um enorme mosaico de vidro. É possível ver alguns importantes murais de Diego Rivera, porém a pintura mais linda que vi dele foi no próprio Museo Mural Diego Rivera, que é onde se encontra Sonho de uma Tarde de Domingo na Alameda Central. A pintura mistura a história do México aos sonhos dos personagens, que incluem desde o guerrilheiro Emiliano Zapata, o próprio Rivera quando criança e Frida Kahlo, que aparece como parte de seu sonho. A figura central do mural é a morte, bastante presente na cultura mexicana. Rico em detalhes, a impressão que passa é que podemos passar um dia inteiro examinando cada pedaço do mural. Tive a sorte de escutar explicações de um guia do museu enquanto estive lá.

Ainda conheci a Casa de Azulejos, onde almocei, que exibe todo seu charme por dentro e por fora. Mais alguns giros pelo centro e voltei à Plaza de la Constituición. Subi num restaurante com vista para a praça e brindei a véspera do meu aniversário com uma michelada, drink de cerveja servido com gelo, limão e sal na borda da caneca.

em busca das sombras
•Setembro 21, 2009 • Deixe um comentárioNa minha última aula de canto antes de viajar para a Califórnia, a Andrea chamou minha atenção para algo interessante em meu canto. Disse que eu deveria deixar as sombras aparecerem mais, que tudo estava sempre muito claro para mim.

Fiquei na dúvida do que isso significava. Estaria ela reclamando do meu excesso de sonoridade? Seria um problema de escutar de mais dentro de mim e me sentir sempre muito acompanhada pelos sons de dentro? E se eu brincasse mais com a incerteza?
Como metáfora, ela sugeriu que eu fotografasse dentro do vaso, deixando que o escuro aparecesse, sem me incomodar com ele. Eu ri. Não sabia se me ajudaria a cantar melhor, mas foi uma boa deixa para meu olhar fotográfico. Aquela idéia ficou dentro de mim e durante a viagem comecei uma brincadeira com as sombras.


Foi assim que surgiram essas duas pequenas séries. Não usei nenhum vaso, mas encontrei outras sombras durante minhas andanças fotográficas. Mais especificamente em dois lugares. Um deles, uma caverna com grafites que visitei no Albany Bulb, um parque na cidade onde mora minha irmã. Ela estava escura, mas algumas frestas de luz se infiltravam por buracos que permitiam a entrada do sol. Outro, o Ohmage Salvage, um espaço também em Albany que vende material usado para casa, desde antiguidades até móveis velhos mesmo, portas, janelas, maçanetas, esculturas, lustres, de tudo.
No meu canto, essa sombra permanece um mistério. Talvez eu tenha que arriscar mais, descobrir a beleza das sombras, do desconhecido. Talvez. Fica inaugurada aqui a pesquisa, na fotografia e na voz.
refém da solidão
•Agosto 18, 2009 • Deixe um comentárioEstou lendo a biografia do Paulo César Pinheiro e não há como negar o quanto sua vida é inspiradora. Não foi à toa que se tornou um dos maiores letristas do país. Aos treze anos, o então garoto carioca já sente pulsar em sua alma inquieta a certeza de se sagrar poeta, como ele mesmo declara em poema sobre sua infância anos depois. Foi com essa idade que escreveu sua primeira letra de música (Viagem), num impressionante auto-retrato que profetizaria seu futuro. Foi escrita para musicar uma valsa de João de Aquino, primo de Baden Powell.
Viagem (João de Aquino e Paulo César Pinheiro)
Oh tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona na garupa leve
Do tempo macio que vem caminhando
Desde muito longe lá do fim do mar
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas vai escondida querendo brincar
Senta nessa nuvem clara, minha poesia
Anda se prepara, traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar
Olha, quantas aves brancas, minha poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh poesia me ajude, vou colher avencas
Lírios, rosas, dálias, pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu
Mas, pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela guia
Num clarão de lua quando serenar
Ou talvez até, quem sabe nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é Raio, Raio de Luar
A partir daí, o casamento com a música foi definitivo. Conhece Baden Powell, que mesmo 12 anos mais velho o introduz a rodas de músicos consagrados. Aos poucos cria laços e parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Nelson Cavaquinho, Candeia, Pixinguinha, Eduardo Gudin, Mauro Duarte, João Nogueira. Sem diminuir ritmo, Paulinho compõe até hoje, tendo ao seu lado músicos como Guinga, Maurício Carrilho e até mesmo Lenine.
É curioso que poucos conheçam seu nome, mas é impossível que ignorem suas músicas. Muitos de seus sambas ficaram eternizados pelas vozes de Elis Regina, Elizeth Cardoso e Clara Nunes, que foi sua mulher até o final da vida. Venceu a Bienal do Samba de 1968 ao lado de Baden Powell pela canção Lapinha, interpretada na ocasião por Elis Regina. Estava com 19 anos. Ao lado de Baden escreveu quase 50 músicas, entre elas Refém da Solidão e Vou deitar e Rolar.
Chegou a musicar Ingênuo, choro de Pixinguinha, que não conheceu a letra por inteiro pois faleceu antes dessa ter ficado pronta. Consideremos que Pixinguinha já tinha mais de 70 anos e o jovem poeta mal passara dos 20.
Não à toa, Clara Nunes foi das intérpretes que mais gravaram seus sambas, trazendo para nosso imaginário sambas eternos como Canto das Três Raças e Menino Deus, entre outros. Em 1983, Paulinho escreveu um samba em homenagem à cantora, quebrando um silêncio retraído que enfrentou após sua morte inesperada, aos 40 anos, após uma cirurgia para retirada de varizes que provocou um choque anafilático em reação à anestesia.
Um ser de luz (João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)
Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar
Sua voz então
Ao se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava
Espantava a dor
Com a força do seu cantar
Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
A gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de Vê-la, sabiá
Sabiá
Que falta faz tua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia
Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá
Adeus, meu sabiá, até um dia
Poderia passar horas citando letras de músicas de Paulo César, sua obra é tão vasta que fica difícil dar conta de imprimir sua importância num único e breve post. Só relembro dois de seus sambas que foram escritos em parceria com João Nogueira: Minha Missão e Poder da Criação, que falam da força do samba, que acende nossa mente e os corações, que nos guia, que nos angustia e contagia. Quem tem o samba na alma certamente se sente comtemplado por suas letras.
Em outro momento falarei sobre a parceria com Gudin, que admiro em especial. Não conseguiria resumir em um parágrafo o quanto me influenciam suas músicas.
Por hoje, complemento este post apenas com um vídeo em sua homenagem, cantando um samba que marcou o namoro dos meus pais e que portanto me acostumei a escutar em casa desde menina.
elogio da mentira
•Agosto 12, 2009 • Deixe um comentário“…morremos todos assim, o maldito último dia, você acorda, o dia está claro, um céu azul, maravilhoso, ou um dia cinzento de chuva, também é maravilhoso, você pode fazer amor com a mulher que ama, fazer um filho, pode escrever um livro, plantar uma árvore, deitar-se no sol, mas você não faz nada, nem ama, nem escreve, nem planta, você simplesmente desperdiça o dia, enfia o dia no lixo, você vai ao banco, conserta a torneira, fala com o contador, você se irrita com o telefone que não funciona direito, joga o dia no lixo, e às cinco horas da tarde, pum, morre. Ninguém te avisou que aquele era o último dia”.
Patrícia Melo, em Elogio da Mentira





