Meu sogro me emprestou sua Rolleiflex essa semana. Outro dia me perguntou se ainda existiam carretes de medio formato (filme 120mm) e comentou que tinha uma câmera guardada e sem uso há anos.
Quando recebi o brinquedinho esses dias, vi que ele estava em perfeito estado. Corri para a página da Rolleiflex e descobri que se trata da série 3.5F Model 3, fabricada entre 1960 e 1964.
No começo do ano eu fiquei algumas semanas com uma Hasselblad emprestada e fiz alguns retratos. Tive a oportunidade de levar a câmera para Paris e fotografar a cidade das luzes com esse clássico aparelho fotográfico. A Hassel me causou alguns transtornos, volta e meia falhava, estava um pouco frágil e chegou a travar na primeira foto que eu fiz durante a viagem. Fiquei com medo de ter entrado numa roubada ao ter pego ela emprestada, mas por sorte me indicaram um fotógrafo que morava na cidade, que gentilmente me recebeu em sua casa numa tarde de sábado e me ensinou alguns truques para lidar com a bichinha.
Fotografar com uma câmera de médio formato como essas tem um outro tempo. Há quem defenda que a digital só muda o comportamento do fotógrafo porque ele se deixa levar pelo impulso de clicar compulsivamente e checar constantemente o resultado de cada clique. Não necessariamente precisaria ser assim, com a digital na mão poderíamos nos condicionar a esquecer a tela brilhante e pensar mais antes de cada clique.
Mas existe uma magia em fotografar com película. Existe um tempo próprio. A começar pelo custo de cada fotograma, não queremos desperdiçar uma foto sem elaborá-la bem. Cada carrete tem 12 fotogramas – e não há garantia de que teremos 12 fotos inteiras, a primeira e a última são sempre um risco na hora da revelação, podem ser cortadas ao meio. O resultado é que selecionamos “melhor” antes do clique. Poderíamos nos comportar assim com a digital, mas duvido que os fotógrafos não sintam essa diferença ao migrar de um suporte a outro.
Outro motivo para nos determos durante o ato fotográfico é que demora um tempo para nos acostumarmos com o visor da câmera, que inverte a cena enquadrada. Ainda não me acostumei com esse detalhe e isso me obrigou a insistir em ângulos, enquadrar e reenquadar. Pratiquei pouco com a Hassel, agora estou empolgada para retomar os “estudos” com a Rolleiflex.
Finalmente, parte do encanto, especialmente para fazer retratos, se dá ao fato de não situarmos a câmera diante dos olhos ao enquadrar o outro. Sem um objeto nos tapando o rosto, mais precisamente com a câmera posicionada na altura do peito, a relação entre fotógrafo e fotografado se torna mais íntima. Esse olho no olho para mim esse é o motivo de maior fascínio destas câmeras.
A few years ago I decided to face myself and say goodbye to parts of me that wouldn’t let me be myself. I had recently discovered that my mother was sick and the idea of facing her death made me think about my own life and how much I knew me. How could I consider I was alive if I was being untrue with myself?
While I stripped the old person I was I felt a huge emptiness inside. At first I got scared but then I got used to the idea that my journey had just started and I had no reasons to hurry.
This series is about this feeling of transformation, the acceptance of death, the death that means a new start. It’s about the beauty of letting die old patterns and identities and facing the emptiness and unexplored future. I don’t know what person is under these textures but I am willing to meet her when she is ready to appear.
Retrato de Atget feito por Berenice Abbott em 1927, ano de sua morte
“Atget no fue un esteta. Era una pasión dominante lo que le empujaba a registrar la vida. Con la lente maravillosa del sueño y la sorpresa, “fue” (es decir, fotografió) prácticamente todo lo que le rodeaba, dentro y fuera de París, con visión de poeta. Como artista veía en abstracto y yo creo que consiguió hacernos sentir lo que veía. Fotografiar, registrar la vida, dominar sus temas, fue tan esencial para él como lo era escribir para James Joyce o volar para Lindbergh…”
Berenice Abbott, 1929
Essa semana tive o privilégio de visitar a exposição Eugene Atget – El Viejo París na Fundación Mapfre. O fotógrafo passou mais de 20 anos fotografando a capital francesa obcecado pelo impulso de registrar a arquitetura, o comércio e os costumes da cidade. O resultado foram milhares de fotografias feitas com uma câmera de placa de vidro 18x24cm que ele nunca substituiu. Os negativos estão todos numerados e identificados com sua letra, a exposição apresenta as ampliações originais feitas por Atgét e em algumas é possível reconhecer as anotações do verso da foto.
Interior da casa de um operário, 1910
Em 1920, já satisfeito com seu trabalho, escreve para o diretor de Bellas Artes pedindo que este compre seus negativos. Sem família, tinha medo que suas imagens se perdessem e não viessem a público cumprir seu papel. Explica ao diretor que tinha registrado todas as ruas velhas de Paris, palácios, mansões históricas, fachadas de prédios e casas, detalhes arquitetônicos e até mesmo interiores de casas. “Puedo decir que tengo en mi poder todo el viejo París”.
Essa parte da exposição me deixou especialmente fascinada por apresentar interiores de casas de pessoas simples, desde operários, atores e pessoas da alta sociedade.
O compromisso pessoal com que assumiu essa larga reportagem sobre Paris me lembrou o ensaio de August Sander sobre Os Homens do Século XX. Sander retratou membros da sociedade alemã de todas as classes e profissões, apontando sua lente para revolucionários, burgueses, homens, mulheres, artistas, operários, crianças, trabalhadores, mendigos, comunistas, ciganos e negros. Seu foco é mais o retrato, porém a ideia de fotografar uma época sistematicamente para construir um registro histórico é um paralelo do que Atget fez em Paris, não apenas com retratos.
August Sander
Era novidade a possibilidade dos fotógrafos levarem suas câmeras às ruas e só mesmo o compromisso artístico pode explicar como esses dois fotógrafos seguiram com seus ensaios por tantos anos, circulando pelas ruas com um equipamento tão pesado.
August Sander produziu um amplo catálogo visual da sociedade alemã no início do século XX. Apesar de censurado durante a era de Hitler e da perda de cerca de 30 mil negativos num incêndio em sua casa em 1946, August seguiu com sua jornada fotográfica. Hoje temos acesso a apenas uma parte de sua produção, que já é preciosa. Imagine o que foi perdido…
Mais informações sobre a exposição de Eugène Atget podem ser vistas no site da Fundación Mapfre.
Ângela Maria começou a cantar na igreja. Desde pequena ouvia seu pai cantando hinos evangélicos e a proximidade com a música a fez sonhar em ser cantora. No entanto, por saber que a família jamais aceitaria sua escolha, participava de programas de calouros às escondidas, com o pseudônimo que levaria por toda a vida. Abelim Maria da Cunha, seu nome de batismo, nasceu em 1928, em Conceição de Macabu, Rio de Janeiro.
Ganhava todos os concursos. Não tardou para que fosse convidada a ser crooner, em seguida descoberta pelas rádios e logo gravaria seu primeiro disco, em 1951. Na década de 50, conquistou várias anos o título de Rainha do Rádio, sua popularidade era tremenda. Elis Regina e Milton Nascimento são dois músicos que tiveram Ângela Maria como referência maior.
Cantava de tudo, desde tangos, boleros, baladas até sambas, mas consagrou-se mesmo interpretando sambas-canções, gênero que revelou também Maysa, Nora Ney e Dolores Duran.
Angela gravou mais de 100 discos em sua carreira. Não tive oportunidade de acompanhar a entusiasmo que sua voz causava nas rádios, pouco ouvi de sua atuação antes de baixar alguns de seus discos pela rede.
O que marcou para mim foi sua participação no filme Rio Zona Norte, de Nelson Pereira do Santos, em que contracena com o personagem de Grande Otelo, um sambista de morro que sonha em ter uma samba gravado em sua voz. Ângela interpreta a si mesma, recebendo das mãos de Grande Otelo um papel rabiscado com o rascunho de um samba de Zé Kéti, Malvadeza Durão. A cena é sem dúvida a mais bonita do filme, a expressão de Grande Otelo ao ouvir suas palavras saindo da boca de Ângela Maria é emocionante. E ela é divina, de paralisar o público.
Clementina de Jesus nasceu em 1903, em Valença, no Rio de Janeiro. Desde criança acompanhava sua mãe ao trabalho de lavadeira e a escutava cantando modas, pontos e cantos de trabalho. Décadas mais tarde incluiria essas canções em seu repertório. Antes entrar para o meio artístico, no entanto, Clementina trabalhou mais de 20 anos como empregada doméstica. Sua carreira como cantora começou no início dos anos 60, quando casualmente foi descoberta pelo poeta Hermínio Bello de Carvalho cantarolando na Taberna da Glória.
De uma simplicidade imensa, que se pode conferir no sorriso e olhar terno dos vídeos espalhados pela rede em que ela aparece, essa mulher trazia em sua voz um peso ancestral, evocando a cultura africana, através de cânticos que aprendeu com a mãe, que era filha de escravos.
O contato com o samba também marcou sua trajetória. Em 1965, Hermínio Bello de Carvalho criou o espetáculo Rosa de Ouro, em que ela cantava ao lado de Elton Medeiros, Nelson Sargento e Paulinho da Viola, que estava em início de carreira. O sucesso foi tanto que o grupo circulou do Rio para São Paulo e Bahia e gravou dois LPs com as músicas do show.
O entusiasmo contagiou Elizeth Cardoso, que assistiu ao espetáculo inúmeras vezes e entrou em contato com Hermínio para gravar ela própria parte do repertório. Assim nasceu a parceria entre os dois e o disco Elizete Sobe o Morro, com canções de Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Cartola, Candeia, Nelson Sargento e afins.
Clementina conquistou diversos músicos, tendo participado de discos de João Bosco, Milton Nascimento e Alceu Valença. Outro disco histórico foi Gente da Antiga, em que gravou ao lado de Pixinguinha e João da Baiana.
Clementina morreu aos 85 anos, em 1987. Para finalizar esse post deixo o clipe do samba Partido Clementina de Jesus, feito por Candeia em sua homenagem e gravado por ela e Clara Nunes. A versão do youtube está bem lavada, mas o importante é ter acesso ao vídeo.
Esses dias comecei a pesquisar sobre as mulheres que tiveram papel fundamental para a história do samba brasileiro. Sem me preocupar com ordem cronológica, comecei por Nara Leão.
Sempre me atraí por sua história de garota de família rica e bem relacionada, que começou a estudar violão aos 11 anos e presenciou nada menos que o nascimento da bossa nova no apartamento de seus pais em Copacabana, pois lá aconteciam rodas com músicos como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli, seu namorado na época. Até João Gilberto se juntou ao grupo num determinado momento. Essa proximidade com o grupo lhe rendeu o título de “musa da bossa nova” e várias canções foram a ela dedicadas, como O Barquinho, Se é Tarde me Perdoa, Lobo Bobo. Mais tarde encomendaria uma canção a Chico Buarque e seria brindada Com Açúcar, Com Afeto.
O início de sua carreira aconteceu quando subiu no palco com Vinicius de Morais e Carlos Lyra no musical Pobre Menina Rica. O que ninguém esperava é que no ano seguinte, em 1964, a musa da bossa lançasse seu primeiro disco com “sambas de morro”, como Diz que Fui por Aí (Zé Kéti e Hortêncio Rocha), O Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros), Luz Negra (Nelson Cavaquinho e Hiraí Barros).
A seleção gerou polêmica entre os seguidores da bossa-nova, Nara foi a primeira cantora branca, da zona sul, a homenagear sambistas esquecidos. E ela não pararia por aí. Seu próximo LP, Opinião de Nara, gravado no mesmo ano, teria mais músicas de Zé Kéti: Opinião e Acender as Velas. Daria origem ao espetáculo Opinião, dirigido por Augusto Boal, que teria no elenco ela, Zé Kéti e João do Vale.
O show fazia crítica social à repressão imposta pelo regime militar. No ano seguinte, impossibilitada de atuar por estar afônica, Nara convidou Maria Bethânia, então estreante, para substituí-la. Dessa forma teve participação na projeção da intérprete baiana, que lindamente nos brindou com sua interpretação de Carcará (João do Vale e José Cândido) durante o espetáculo.
Em 1966, é vencedora do II Festival de Música Popular Brasileira da Record ao interpretar A Banda, de Chico Buarque. Sempre engajada e atual, Nara lançou vários músicos da MPB, como Chico, Paulinho da Viola e Sidney Miller. Também foi uma das primeiras a apoiar o movimento da Tropicália, que reivindicaria novas influências musicais nos finais da década 60. Em 1972, participou de Quando o Carnaval Chegar, filme de Cacá Diegues, ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia.
Nara faleceu em 89, vítima de um tumor no cérebro. Tinha apenas 47 anos. Quem tiver curiosidade para conhecer mais a cantora pode apreciar a leitura do artigo Nara: o Pássaro e o Leão, de Augusto Buonicore, no Portal Vermelho.
É viva. A primeira impressão depois que fiz as pazes com ela. Cheguei em Madrid com o pé esquerdo. Era véspera de ano novo, 4 da tarde, quando aterrissei na Espanha. Minha primeira viagem à Europa, minha primeira despedida do continente americano se dava aos 30 anos. Depois de alguma semanas turbulentas de preparo de viagem, dúvidas internas – não sabia mais se teria sentido passar um ano na Espanha – estava embarcando no aeroporto após horas de conversa com meu irmão no aeroporto internacional de São Paulo. Minha família passava por uma verdadeira tormenta emocional e lá estava eu me despedindo de todos num momento muito difícil, insegura da minha decisão de seguir meus planos pessoais.
Onze horas para chegar a Madrid foram tempo suficiente para folhear o guia Lonely Planet que ganhei de presente da minha melhor amiga em busca de um restaurante para fazer minha ceia sozinha. Seria uma noite simbólica. Eu tinha amigos morando em Madrid, mas nenhum deles estava na cidade quando cheguei, eu sabia que estaria por mim mesma na virada do ano. Minha meta era encontrar um lugar charmoso para comer e quem sabe conhecer alguém, um grupo de amigos.
Decidi ir para Bilbao. Deixei as malas na casa de uma amiga que estava em Barcelona e corri para o metrô. Em Bilbao, tudo fechado. Eu me sentia sem graça por ter imaginado que a véspera do ano novo seria uma noite como outra qualquer em outras cidades grandes que não São Paulo. Eu ainda me depararia com muitas diferenças culturais para coisas que eu nunca imaginei que poderiam ser de outra forma. Um pouco da graça de morar fora está nisso. Um pouco do perrengue também.
Obrigada a improvisar, caminhei até meu destino final: Puerta de Sol, a praça central da cidade onde tradicionalmente uma multidão se reúne para comer 12 uvas à meia-noite. No caminho encontraria um restaurante, pensei, era sexta-feira à noite, só que quanto mais eu andava mais desconfiava que estava enganada. Acabei comendo um “Pedaço de Pizza” perto do metrô Tribunal e desci a Calle Fuencarral a pé. Eu sempre estou disposta a reinventar meus planos, mas decididamente tive que me esforçar para manter o bom humor ao encarar minha ceia de ano novo. Eu ainda estava baleada do cansaço e da alergia que peguei do ar condicionado do avião.
Na Praça Puerta de Sol, uma multidão de gente. Descobri um café aberto e pedi uma cerveja. Torci o nariz ao ver a galera fumando dentro do café – no dia seguinte começou a lei anti-fumo dentro dos bares, para minha felicidade. A cerveja não foi uma boa ideia, acentuou o sono provocado pelo antialérgico e eu já olhava o relógio impaciente. Ainda são 22h?
Sim, como de costume fiz alguns amigos e me convidaram pra comer uvas na praça com eles. Quando me vi no meio daquela multidão mais apertada que a última Parada Gay de São Paulo que consegui ir me senti… velha. Eu não tenho mais idade para isso, pensei. Me despedi da turma e sumi de cena. Era quase meia noite quando sentei num banco de praça e fiquei observando a cidade à noite, numa esquina movimentada de muitas luzes. Minha primeira noite em Madrid, a última noite do ano. Meu primeiro ano morando em outro país, longe da família, dos amigos, do centro de São Paulo, das rodas de samba. Uma sensação forte de vazio, um vazio que não era tristeza e sim de total falta de ideia do que aconteceria a partir de então. Um vazio instigante, assustador e animador ao mesmo tempo. Nada seria como antes, eu estava livre para desenhar meu caminho como bem entendesse e para experimentar tudo o que potencialmente aquela viagem tinha para me oferecer.
2011 seria um ano todo dedicado a mim, a investigações pessoais, a me conhecer melhor distante de minhas referências culturais, do contexto familiar, do conforto de saber os percursos possíveis para chegar onde eu queria. Eu teria que descobrir como participar daquele novo mundo, o velho continente, revendo meus conceitos, meus sonhos, meus jeitos, observando o modo de vida daqui. Seria o tempo de rasgar meu caminho e fechar as feridas, como diria o Paulinho da Viola. Tempo de me rever, respirar fundo e reconstruir.
Nessa hora eu desci para o metrô. Estava muito feliz de estar lá e já tinha combinado que passaria o ano novo sozinha, estava muito tranquila. Passei a virada embaixo da terra. As estações estavam desertas e eu explorava as linhas de metrô daquela que passaria a ser minha cidade, sem ter ideia para onde elas iam, do que estava em cima dela, sem ter ideia de qual estação seria a mais próxima da minha nova morada.
Em casa abri uma cerveja e brindei meu ano novo. Uma página em branco que eu preencheria a partir daquele momento.
à procura de mim no parque do retiro
Na primeira semana em Madrid encontrei um quarto pra alugar em Gran Vía, no centro da cidade. Eu estaria cercada por cinco linhas de metrô, do lado de uma praça, com várias lojas que comics, uma região de putas, chinos e gays. Muito similar à diversidade que eu encontrava morando na Roosevelt, ainda que bem diferente. Eu dividiria com uma espanhola – uma das metas da viagem é aprender espanhol -, estudante de arquitetura, que adorou a ideia de morar com uma brasileira pois assim teria contato com uma cultura nova e aprenderia um pouco de português.
Na manhã seguinte peguei um trem e fui a Barcelona encontrar meus amigos. Todos me diziam que eu não me acostumaria com Madrid depois de ter visto a tão esbelta Barcelona. Claro que me apaixonei pela cidade praiana e por uns dias senti temor de não me acostumar com a Madrid que me fechou as portas logo de cara.
Só que Madrid me enfeitiçou logo que voltei e fiz as pazes com ela. Caminhando pelo centro, fui cativada por seus cafés, suas ruas estreitas, seus prédios cheios de sacadas, suas praças, o Palácio Real, as luzes à noite, a quantidade de pessoas circulando. Madrid tem vida. Como diria um cara de Valência que conheci outro dia, “Madrid tiene alma, tiene magnetismo, es una ciudad que te atrapa”. Ele também me alertou que é uma experiência vital, porém isso deixarei para constatar no futuro.
Desde o jardim da infância até a oitava série eu estudei num colégio integral. Entrava às sete da manhã e ficava até o cair da tarde, depois de jantar. Eu me lembro da sensação de me sentir gente grande quando na sexta série ganhamos uma tarde livre por semana. Eu e meus amigos andávamos sete ou oito quadras até o Shopping Ibirapuera e achávamos o máximo tamanha liberdade. O programa preferido era ir ao cinema, mas tenho boas lembranças do trajeto até o shopping, caminhar pelas ruas da cidade me trazia um leque de novidades. Eu não tinha esse hábito longe do bairro onde morava, na zona sul, muito menos sozinha.
Conheci Magnólia em 2001, durante um workshop com João Wainer no Jardim Pantanal. Ela estava grávida e tinha 19 anos. Eu era dois anos mais velha, porém nunca tinha mirado o espelho com essa expressão no rosto. O que teriam visto seus olhos para trazerem esse semblante? - São Paulo, 2001
Na sétima série nos deram duas tardes livres e na oitava, três. Como meus pais trabalhavam o dia inteiro – motivo pelo qual fui parar nessa escola – eu comecei a ir para casa de ônibus sozinha. Não sei ao certo como foi que começou, imagino que minha irmã tenha me introduzido ao transporte coletivo, me ensinado as linhas disponíveis, como pedir para o ônibus parar e tal, só sei que comecei a me relacionar com o mundo de outra forma. Ficava atenta a tudo e a todos, sacando o movimento, o humor, o jeito das pessoas.
Lembro de uma vez ter pego um ônibus que tinha acabado de ser assaltado e de ter escutado relatos de pessoas sobre os pertences perdidos, o susto que levaram. A partir desse dia eu passei a colocar meu relógio de pulso no tornozelo antes das viagens e tinha verdadeiro orgulho da minha esperteza. Eu começava a adquirir a malícia dos grandes centros urbanos, desnecessária até então no meu mundo infantil e protegido de quem passava o dia inteiro na escola particular e só andava de carro.
Brás - São Paulo, 2001
Lembro também que eu passava um bom tempo tentando decifrar o mundo e criava enredos das vidas das pessoas na minha cabeça. Olhava para uma mulher de cara mais triste e imaginava que estava sentindo falta de seu filho, que tinha sido maltratada pelo marido e que estava cansada das viagens longas de casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Mirava um senhor de muitas rugas, com uma sacola de plástico entre os dedos e me perguntava: de onde será que ele veio? Em que parte da cidade ele vive? Será que tem família aqui ou vive sozinho? Será que tem uma casa aqui ou está de passagem? Qualquer fala, movimento ou situação nova me introduziam mais detalhes e eu podia reescrever suas histórias na cabeça. Às vezes vencia minha timidez e conversava com um ou outro estranho. Eu chegava em casa engrandecida, como se o mundo tivesse me presenteado com mais pistas para compreendê-lo.
Nessas viagens comecei a ver com frequência garotos com roupa rasgada e suja saltarem a roleta ou passarem por baixo dela para depois iniciarem um discurso entristecido sobre o quanto a vida estava difícil e que precisavam ajudar a mãe e os irmãos… Eu ficava imaginando: será que vão pra escola? Tem mesmo uma família ou vivem na rua? Será que esse tá doido de cola? Eu tinha uns 11, 12 anos.
O trajeto até minha casa durava quase meia hora. Na época ainda existia a Favela do Buraco Quente e o ônibus cortava ela num trecho para seguir caminho até meu bairro. Era um lugar perigoso, anos depois soube que era um ponto forte de tráfico de armas, não apenas de drogas como eu supunha na época. Não me lembro de situações em que senti medo de cruzar aquele pedaço. Eu sabia que tinham moradores da favela no ônibus comigo e que alguns deviam estar envolvidos com o crime, mas sempre me senti segura, não sei explicar porque.
Janela da alma, espelho do mundo. Os olhos são verdadeiras portas de entrada ao mundo interior das pessoas. Mercado Municipal - São Paulo, 2001
Eu gostava de observar as pessoas, e sempre que possível mirava seus olhos. Uma parte em mim acreditava que não importava de onde eram e nem para onde iam, se nos olhássemos nos olhos a fundo nos compreenderíamos de alguma forma. Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que é difícil de dizer… o indizível, um trocar de olhares apenas seria suficiente. Anos depois eu descobri o termo “janela da alma”, que Maria Rita Kehl descreve como a idéia de que o olhar coloca nosso interior para o mundo exterior. Era exatamente aquilo que eu sentia, que o olhar daquelas pessoas as traduzia para mim.
minha bisavó Tininha numa casa de repouso aos 98 anos - São Paulo, 2003
De algum modo eu acredito que durante essas viagens nasceu a Maíra fotógrafa. Para aquela garota que nada conhecia do mundo externo, que ia de casa para a escola dentro do carro, uma primeira fresta sobre a realidade se abriu. E aquilo me trazia paz, embora na época eu não percebesse a dimensão das mudanças sutis que surgiram desse novo hábito.
Como me fazia bem ter a rua, viver situações novas, ver gente de todos os tipos. O mundo na escola parecia tão distante de mim, eu sempre me senti descolada de tudo e de todos. Quando criança, ao final da tarde, eu tinha costume de pegar minha mochila e encostar num canto do corredor da recepção da escola esperando meu nome ser anunciado com a chegada da minha mãe. Ao final do dia os alunos ficavam jogando na quadra de esportes, nem para isso eu me animava. Não me sentia confortável com eles, algum desassossego morava dentro de mim e me fechava para o convívio.
D. Gioconda Rizzo, fotógrafa brasileira, aos 106 anos - São Paulo, 2003
Quando eu ganhei a rua, o mundo se expandiu e milhares de referências novas surgiram diante de mim. Se eu não me encaixava entre os personagens da escola, era bom saber que havia tipos tão distintos soltos por aí… eu já não me sentia tão mal por ser diferente.
Olhares marcados, rostos marcados... Praça Júlio Prestes, São Paulo, 2003
Depois que comecei a fotografar na faculdade vi que tinha nas mãos a possibilidade de entrar na casa das pessoas que me fascinavam. Finalmente eu teria pistas concretas de outras realidades e poderia desenhar o enredo de suas vidas com mais precisão. Foi assim que me apaixonei pela fotografia. Cada personagem que passava por mim me oferecia um ponto de vista particular e aos poucos eu encontrava eco para meus gritos internos, de origem desconhecida, tão abafados pelo incômodo sentimento de me sentir estrangeira para os outros.
Esse ano minha mãe realizou o sonho da vida dela: conhecer a Itália. Foi um presente para ela, ainda mais considerando que há mais de dois anos ela está em tratamento contra um câncer. Desde o início apoiei a realização do sonho dela. A quimioterapia é uma agressão indescritível ao corpo e doença para mim é sinal do corpo e da alma pedindo atenção e carinho. Temos mais é que nos proporcionar o máximo de realizações.
Publico aqui a versão digitalizada de uma entrevista que ela concedeu à Alatur Magazine, agência de turismo que programou a viagem dela com os devidos cuidados. Fiquei emocionada com a matéria e decidi compartilhar. Vale a leitura dos pequenos relatos dela na última página.
Não fiz muita pesquisa sobre o que visitar em NY antes de chegar lá e optei por uma saída simples. Lancei uma enquete para meus amigos pelo FB: o que devo visitar em NY em quatro dias de passeio? Choveram propostas e me deliciei com as panquecas da Clinton St. Baking Company, o cheeseburger da Corner Bristo, as cervejas da McSorleys Old Ale House, o som do Smalls Jazz Club, entre tantas sugestões deles.
Cerveja e hamburger na Corner Bristo: preço bom e ambiente aconchegante
Em minha primeira noite na cidade, fui para Burp Castle, um bar que fica em East Village e que foi indicado pela Carol. Eu estava sozinha e não havia lugar para sentar. Me encostei no balcão e pedi uma cerveja. Passei os olhos pelo ambiente, era pequeno e as paredes eram cobertas de gravuras. Todos estavam entretidos com suas conversas e não pareciam muito interessados na minha presença, rs. Puxei meu moleskini vermelho da bolsa e comecei a escrever sobre meu primeiro dia na cidade.
NY é sedutora, impossível andar por ela sem se sentir em casa, sem imaginar que ela poderia ser sua casa. Conhecemos seus bairros e atrativos a partir de filmes e fotografias, é muito fácil se deslocar pela cidade e sua beleza é tamanha que a vontade é de destrinchar todas suas ruas.
Light or dark? Pedimos 2 cervejas no pub irlandês McSorleys Old Ale House e ganhamos 4!
Não demorou muito para que dois rapazes se aproximassem e puxassem assunto comigo. Em pouco tempo estava numa mesa cheia de nova iorquinos, apesar de o termo ser meio polêmico por nenhum deles ter nascido na Big Apple. Tom e Ben eram professores de matemática na NYU. Quando me viu escrevendo no bar, Tom confessou que gostava muito de escrever.
Quando souberam que eu era fotógrafa e cantora, me apresentaram a outro amigo deles. Craig era fotografo também, mas ganhava a vida como guia turístico de NY. Conheciam muitos músicos que moravam na cidade. Como a maioria dos artistas, eles não viviam da música, mantinham algum trabalho para sustentá-los e trabalhavam com música também.
“NY é uma cidade muito cara, por mais que se ganhe bem o custo de vida aqui é muito alto”, me explicava Tom. Por isso é comum as pessoas morarem em apartamento tão pequenos e sem muito espaço para receber visitas – eu recebi várias explicações desse tipo seguidas de pedidos de desculpas quando sondei amigos e conhecidos para me alugarem um quarto.
Tacos na madruga / Foto: Craig Stokle
Mas o que encanta é que em NY todo mundo é artista. A cidade reúne inúmeros artistas ou pessoas que sonham em ser artistas. A melhor definição que ouvi foi de um amigo suíço que é sapateador e vive lá há 20 anos: “Em NY não existem garçons, existem atores. Todo garçom é ator”.
Stuffed cabbage no Veselka - beef smothered in our rich mushroom gravy or savory tomato sauce
Além das galerias e museus, o que mais curti foram os bons restaurantes, a música ao vivo e o espírito acolhedor dos moradores. Max me levou para jantar no restaurante ucraniano Veselka, o primeiro lugar onde ele comeu quando chegou na cidade 20 anos atrás.
Foi minha última noite da cidade e eu comemorava ter visto neve pela primeira vez na vida. Fechamos o passeio no pub irlandês McSorleys, onde pedimos 2 cervejas e nos serviram 4. Certamente porque uma só eles não consideram cerveja…
Sou fotógrafa profissional, jornalista de formação, educadora em projetos de fotografia e comunicação e cantora por aspiração. Gosto de escrever, estou começando a produzir vídeos e tenho um sonho de um dia fazer um quadrinho autobiográfico.
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Meu sogro me emprestou sua Rolleiflex essa semana. Outro dia me perguntou se ainda existiam carretes de medio formato (filme 120mm) e comentou que tinha uma câmera guardada e sem uso há anos. Quando recebi o brinquedinho esses dias, vi que ele estava em perfeito estado. Corri para a página da Rolleiflex e descobri que [...]
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