sonho de menina

Maíra

Quando eu era menina, sonhava em ser cantora. Eu vivia escutando música e cantarolando pelos cantos da casa. Posso afirmar com toda a certeza que a música sempre foi minha maior paixão. Nenhuma descoberta foi maior que ela, nada me deu mais prazer na vida até hoje que cantar. Tão simples. Se me perguntarem que instrumento mais amo direi que é a voz. Um privilégio porque posso levá-lo onde quero e usá-lo quase em qualquer canto. O segundo instrumento seria o violão. Meio óbvio para alguém que cresceu escutando o pai tocando violão acompanhado da voz da mãe. Tempos alegres aqueles.

Ainda por cima, tinham um gosto musical finíssimo. Das bossas aos sambas antigos, quase tudo que eles cantavam era do melhor da música brasileira. João Gilberto, Gil, Gal, Tom Jobim, Vinícius, Toquinho, Ismael, Gudin, Baden, Caetano, Chico, Nelson Cavaquinho, Cartola, Ary Barroso, Elis, Elizeth, Bethânia, choros, sambas, bossas. Minha mãe era uma caixinha de música. Sabia inúmeras letras e melodias e tinha mania de apresentar a música, dar título, crédito e possivelmente contar alguma anedota relacionada à história da canção qua acabara de interpretar. Sempre despojadamente, sem nenhum esforço apresentava seu timbre afinado. Até hoje ela faz isso. Mas disso eu conto melhor outro dia.

Eu me lembro de rodopiar pela sala da casa junto da minha irmã. Aquela casa onde morei até os 7 anos, que tinha um porão incrível onde eu e a Pri podíamos fazer a bagunça que quiséssemos sem precisar arrumar nada. Nessa casa tinha a vitrola que hoje está no meu apê. Trem da Alegria, Saltimbancos, Vila Sésamo, Plunct Plact Zum, todos esses e outros discos infantis passaram por lá. Um disco dos 101 dálmatas, outro com uma história do Papai Noel (afe), Turma da Mônica, Xuxa (não tinha como escapar). Curiosamente, os discos da Rita Lee marcaram muito minha infância. Esses eu pegava pelas arestas do repertório dos meus pais, nem sempre a vitrola tocava música pra criança.

Eu sempre adorei o som da Rita Lee e queria ser como ela.  Só outro dia caiu minha ficha: cara, eu queria mesmo é ser roqueira!

E teve um ano no colégio que fizeram um festival de música. Qualquer aluno podia participar inscrevendo uma canção. Podia ser sozinho, em dupla, grupo, como bem entendesse. E lá fui eu, na minha ingenuidade e cheia de desejos infantis inscrever uma música da Rita Lee: Maria Mole. Era pouco conhecida, acho que até hoje pouca gente conhece. Eu me divertia com a letra (acho que eu tinha uns 12 anos ou menos, não sei precisar o ano).

Só que eu era muito tímida e tinha um certo pavor de pagar vexame em público, paranóia minha. Eu sabia que cantava bem, mas não bancava ainda essas ideias. E quando me anunciaram para entrar no palco eu travei. Fiquei escondida na plateia e quando me identificaram e insistiram pra eu assumir o microfone eu desatei a chorar na frente de todo mundo. Fiquei sentindo aquela quentura de desespero dentro de mim, esperando que aquele instante acabasse logo. Na minha cabeça, eu tinha toda a certeza do mundo que ninguém entenderia aquela música, que ririam de mim ou qualquer merda desse tipo.

Faz muito tempo, eu me lembrei disso outro dia, não é um episódio que eu costumo investigar. Fico até na dúvida: será que meu medo era que desse tudo errado ou tudo certo? Nossa, demorou anos para eu cantar em público! Subir num palco era inimaginável. Aquela quentura toda surgia sem eu nem ser convocada ao microfone. Era só imaginar a possibilidade. Então eu fugi e guardei num cantinho dentro de mim aquela vontade toda. E passei a vida pagando um pau fodido pra quem subia em palco. Podia ser cantor, atriz, dançarino, professor de cursinho, qualquer dessas paradas.

Sempre me emociono em ver alguém se expondo com todas as entranhas abertas em público. E aos poucos, em passos curtos e estudados, fui brincando de me expor cada vez mais. Não sei se alcanço os holofotes um dia, pode ser que não. Mas sigo tentando mexer com aquela vontade que ainda está aqui dentro, esperando que eu permita que ela saia.

~ por Maíra em julho 25, 2009.

2 Respostas to “sonho de menina”

  1. Moça!
    Também gostei do inesperado encontro! Foi bom dialogar sobre anseios, desejos e coisas de meninas! Gostei do blog, acompanharei!
    beijocas!

  2. […] declarei minha paixão pela Rita Lee aqui nesse blog, relembrando meu sonho de menina de ser cantora e a admiração que eu tinha por aquela […]

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