pra que chorar

Foi assim que aconteceu. Eu fazia um curso na Casa do Saber no ano passado e um dia apareci na aula e o professor não tinha ido. O monitor ficou todo sem graça porque eu não tinha sido avisada e me ofereceu uma aula em qualquer curso que estivesse rolando aquela noite. Tirei a sorte grande.

Tinha um curso sobre casamento e outro sobre moda. Nada me atraiu. Mas tinha um terceiro curso com o Arthur Nestrovski e o Miguel Wisnik falando da história do samba em uma aula show. Nem preciso dizer que colei naquela idéia sem nem terminar de ouvir explicações.

Eu tinha chegado cedo. Sentei num daqueles sofazinhos compridos que ficam na parede ao lado dos professores. Eles já estavam lá, passando o som que tocariam durante a aula. Um privilégio aquela história toda. Era o terceiro encontro deles e notei que os alunos cantarolavam algumas músicas enquanto os mestres passeavam os dedos no violão. Foi aí que começou. Cantarolei baixinho um trecho de Folhas Secas, um dos temas da noite. De repente o Wisnik esticou o pescoço e olhou para mim, seguido do Arthur, que fez o mesmo movimento. 

Que coisa linda. 

Fiquei sem jeito, parei de cantar e fui seguida de incentivos. Não pare, continue, muito bonito. Eles seguiam com o balançar da cabeça as notas que saíam de mim. Terminaram o ensaio e perguntaram se podiam me chamar para cantar aquela música no momento devido da aula. Quase engasgando eu disse que sim.

E quando chegou o tal momento, os dois pararam a aula e anunciaram.

Temos uma intérprete entre nós e ela vai cantar com a gente Folhas Secas.

Intérprete? Ainda bem que o sofá tinha encosto. O tom tava super alto, pois eles tocavam no original e naquela época eu nem fazia aula de canto, de modo que nem aquecida ou acostumada a cantar eu estava. Melhor, acostumada sim, pois faço isso sempre desde que me entendo por gente.

Tudo bem, pensei, vamos lá. Cantei e na sequencia foi a vez de Luz Negra, que veio naturalmente mesmo sem acordo prévio. Depois eles me perguntavam se eu cantava as músicas que vieram na sequencia e nada. Nunca fui boa para memorizar letras.

Foi nesse dia também que escutei pela primeira vez o Wisnik cantando Pra Que Chorar, a versão de Nestrovski para uma música de Schumann e Heine. Fiquei muito emocionada com a conversa feita com Carinhoso, do Pixinguinha. Ontem assisti esse vídeo do Celso Sim cantando essa música e toda essa história me veio na cabeça. Baixei o disco dele e agora estou embalada por sua voz. Linda, linda demais.

Terminada a aula, o Wisnik e o Arthur me perguntaram se eu era cantora. Nada. Mas faz aula? Nada. Demorou algumas semanas para eu retomar meus estudos com o canto, que merecem alguns posts porque são realmente especiais as vivências que experencio lá. Agora não largo mais.

Pra que chorar (Schumann/Heine, versão A. Nestrovski)

Pra que chorar

Pra que sofrer demais

Foi só um amor perdido

Foi só um amor a mais

Pra que sofrer

Pra que chorar

Pode brilhar

Pode posar de amar

Não tem mais luz pra me fazer voltar

Meu coração

Meu coração bate infeliz demais

Vi seu rosto na cidade

Você fugindo de você e de mim

Vi a serpente era um sonho ruim

Mesmo chorando eu não vou mais chorar

Pra que sofrer

Pra que chorar

~ por Maíra em agosto 9, 2009.

Uma resposta to “pra que chorar”

  1. massa

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: