refém da solidão

Estou lendo a biografia do Paulo César Pinheiro e não há como negar o quanto sua vida é inspiradora. Não foi à toa que se tornou um dos maiores letristas do país. Aos treze anos, o então garoto carioca já sente pulsar em sua alma inquieta a certeza de se sagrar poeta, como ele mesmo declara em poema sobre sua infância anos depois. Foi com essa idade que escreveu sua primeira letra de música (Viagem), num impressionante auto-retrato que profetizaria seu futuro. Foi escrita para musicar uma valsa de João de Aquino, primo de Baden Powell.

Viagem (João de Aquino e Paulo César Pinheiro)

Oh tristeza, me desculpe 
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona na garupa leve
Do tempo macio que vem caminhando
Desde muito longe lá do fim do mar 
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas vai escondida querendo brincar
Senta nessa nuvem clara, minha poesia
Anda se prepara, traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar 
Olha, quantas aves brancas, minha poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh poesia me ajude, vou colher avencas
Lírios, rosas, dálias, pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu 
Mas, pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela guia
Num clarão de lua quando serenar
Ou talvez até, quem sabe nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é Raio, Raio de Luar

A partir daí, o casamento com a música foi definitivo. Conhece Baden Powell, que mesmo 12 anos mais velho o introduz a rodas de músicos consagrados. Aos poucos cria laços e parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Nelson Cavaquinho, Candeia, PixinguinhaEduardo Gudin, Mauro Duarte, João Nogueira. Sem diminuir ritmo, Paulinho compõe até hoje, tendo ao seu lado músicos como Guinga, Maurício Carrilho e até mesmo Lenine

É curioso que poucos conheçam seu nome, mas é impossível que ignorem suas músicas. Muitos de seus sambas ficaram eternizados pelas vozes de Elis Regina, Elizeth Cardoso e Clara Nunes, que foi sua mulher até o final da vida. Venceu a Bienal do Samba de 1968 ao lado de Baden Powell pela canção Lapinha, interpretada na ocasião por Elis Regina. Estava com 19 anos. Ao lado de Baden escreveu quase 50 músicas, entre elas Refém da Solidão e Vou deitar e Rolar.

Chegou a musicar Ingênuo, choro de Pixinguinha, que não conheceu a letra por inteiro pois faleceu antes dessa ter ficado pronta. Consideremos que Pixinguinha já tinha mais de 70 anos e o jovem poeta mal passara dos 20.

Não à toa, Clara Nunes foi das intérpretes que mais gravaram seus sambas, trazendo para nosso imaginário sambas eternos como Canto das Três Raças e Menino Deus, entre outros. Em 1983, Paulinho escreveu um samba em homenagem à cantora, quebrando um silêncio retraído que enfrentou após sua morte inesperada, aos 40 anos, após uma cirurgia para retirada de varizes que provocou um choque anafilático em reação à anestesia.

Um ser de luz (João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar
Sua voz então
Ao se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava
Espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
A gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de Vê-la, sabiá

Sabiá
Que falta faz tua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia
Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá
Adeus, meu sabiá, até um dia

Poderia passar horas citando letras de músicas de Paulo César, sua obra é tão vasta que fica difícil dar conta de imprimir sua importância num único e breve post. Só relembro dois de seus sambas que foram escritos em parceria com João Nogueira: Minha Missão e Poder da Criação, que falam da força do samba, que acende nossa mente e os corações, que nos guia, que nos angustia e contagia. Quem tem o samba na alma certamente se sente comtemplado por suas letras.

Em outro momento falarei sobre a parceria com Gudin, que admiro em especial. Não conseguiria resumir em um parágrafo o quanto me influenciam suas músicas.

Por hoje, complemento este post apenas com um vídeo em sua homenagem, cantando um samba que marcou o namoro dos meus pais e que portanto me acostumei a escutar em casa desde menina.

~ por Maíra em agosto 18, 2009.

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