tempo

roosevelt

Publiquei no Facebook essa foto que fiz na semana passada e um amigo ficou tão impressionado com ela que publicou no seu perfil. A partir daí, seus contatos enviaram comentários e ele me passou por email um texto que recebeu de um amigo divagando sobre minha foto.
Ver-tiginosa.
Sem duvida, a foto é linda. Linda porque instigante. Aqui está a Imagem como imaginário. De cara ela fala sobre o que ela esconde e quando ela revela, o que ela nos mostra e devolve já é diferente. Mudou o espaço e o tempo. Não é verdade que essa foto, como se apóia em reflexos, constrói outros planos e perspectivas e assim a imagem excita a imaginação? Ao mesmo tempo que ela parece ter uma estrutura clara e racional, ela, no plano da narrativa, nos joga no vazio e no subjetivismo. Ela dilui e abstrai os corpos. Esta imagem vive de fragmentos de imagens. O que me atraiu também foram alguns detalhes: a mancha líquida vermelha acima da pomba – a primeira e a única cor. Abstração. Os pés das duas pessoas, que já não são pontos de apoio. O reflexo, que domina a área, abre as janelas do inconsciente, do impensável e do impensado. Aqui, não adianta procurar um sentido. Aqui, o ser ideal, por que incompleto, não está aqui ou além, ele é outro. É outro também porque são contrastes de luz, são silhuetas. O maior momento é o plano invertido que o reflexo cria e que, depois nos devolve a imagem das figuras em dissolução no alter-reflexo. Esse plano ocupa mais de 2/3 da área da imagem e começa na linha dos pés das figuras. Mesmo as ilhas opacas de gris, terra ou areia se integram nesse plano descendente e invertido. A pomba e os reflexos das figuras têm o mesmo teor, cor e valor, por isso a pomba não quebra o processo reflexivo. Ela é o pivô do desdobramento. Esse plano reflexivo, ao meu ver é o que introduz o Tempo nesta imagem e a outra dimensão que ela tem. Se você inverter essa foto, vai ver como os valores da pomba continuam íntegros em seu volume, até mesmo mais tridimensionais porque os seus contornos no reflexo estão diluídos (e o reflexo da pomba está ligado a ela), ao passo que o reflexo das figuras não. O reflexo da pomba cria dois planos possíveis de perspectiva, planos em X paralelos ao plano horizontal. O reflexo das figuras humanas, por estar distante e seccionado eles são bi-dimensionais e mais auráticos (contrariamente à imagem da pomba, que na realidade é contrastado e bidimensional mas seu reflexo é o oposto) – revelando assim, talvez uma característica e particularidade dos humanos: a alma. E essa pomba não voa, anda, ela tem peso e corpo. Pela pomba apresenta-se a qualidade do figuravel. A imagem da pomba é “tirânica”, ela é um índice, nos coloca (impõe) na presença do ser da “cor” e antes mesmo de nos mostrar o volume dos corpos. Essa pomba, a única forma íntegra e terrivelmente figurável e figurativa, ainda apoiada pela imagem invertida do prédio, é concreta, presente. A foto foi feliz pois o clic é o momento preciso em que os tons, a luz, os planos se integraram de tal forma que possibilitaram tudo isso, e acaba sendo um comentário exatamente sobre a construção da Imagem, que apenas a Fotografia é capaz de dizer, e que implica o olhar de um sujeito, uma história, suas divisões, seus fantasmas… Uma metafísica do visível, do legível e do invisível.

Clemente Hungria, professor de História da Arte em Londres

~ por Maíra em outubro 17, 2009.

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