deixar morrer

Então ele se foi. Estou feliz que tenha completado sua jornada cercado da família e dos amigos. Estivemos todos à sua volta essa semana, em que ele ficou de cama se preparando para partir. Foi sofrido para ele, e por esse motivo desejamos que fosse breve. Quisemos que ele vivesse seus últimos dias em casa, em especial para que minha avó pudesse estar ao seu lado.

E que força minha avó. Que clareza. O tempo inteiro ela estava lá, aceitando o fechamento desse ciclo e agradecendo que ele estivesse indo antes dela.

– Minha hora chegou há muito tempo, minha filha, mas eu não podia deixar ele passar por isso.

Ela me disse isso um dia antes dele partir, mas não era novidade. Foram 74 anos de casamento e meu avô era apaixonado pela minha avó desde os 9 anos. Loucamente. Uma adoração sem tamanho. Quando ela adoecia, sua cara murchava e não havia nada que o trouxesse paz enquanto ela não ficasse boa.

Consegue imaginar o que é viver 95 anos?

Não fiquei exatamente triste com sua partida. Ele morreu cercado de amor, com a presença de filhos, netos e amigos. E de sua mulher, que beijou sua mão, acariciou seu rosto e com a voz calma lhe disse que ficasse tranquilo e fosse em paz, pois ela estava a caminho logo mais para encontrá-lo.

Eu senti paz e gratidão pela oportunidade de ter sido sua neta, de ser parte de sua história, de ter aprendido tanto com esse homem. Ele, que desbravou o mundo, redesenhou seu destino ao deixar para trás a vida na roça em Murici, em Alagoas, e construir essa família de treze filhos, trinta netos e vinte e tantos bisnetos – até então.

E foi bela a homenagem que meus tios fizeram a ele no velório. Não podia faltar a cantoria, claro. Meu tio Rodrigo pediu que aceitássemos com alegria a morte desse homem, pois a morte é um renascimento, já que é o encontro com a luz, com a verdadeira vida.

Alguém cantando (Caetano Veloso) – a música foi oferecida pela minha tia Anajas, mas o coro foi geral.

Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão

~ por Maíra em janeiro 31, 2010.

2 Respostas to “deixar morrer”

  1. Maíra

    Tamanha sensibilidade neste belo texto, só me traz a certeza de sua linda árvore genealógica. De fato,vc tem o previlegio de ser desta família que, infelizmente por não ser comum as demais, se torna expecional, pela união, diplomacia, amor ao próximo, entre outras qualidades. Parabéns! DRIKA – amiga de seu tio Arnoldo

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