cruzando os lençóis maranhenses e o rio preguiça

Uma das melhores coisas que aconteceu durante nossa viagem para o Maranhão foi perder, por poucos minutos, o barco que ia de Atins até Barreirinha. Naquele dia, eu e a Laura, acompanhadas de Lee e Bie, a americana e belga que se tornaram nossas amigas em São Luís, decidimos cruzar os Lençóis Maranhenses de Toyota, de Santo Amaro até Atins.

Bie, Lee e Laura em passeio de Toyota na Lagoa da Gaivota

Tínhamos passado um dia em Santo Amaro, feito um incrível passeio para o povoado de Betânia e a Lagoa da Gaivota (que merece um post a parte). Sim, já tínhamos sido abençoadas pela beleza desse lugar mágico que são os Lençóis e agora queríamos uma saída à altura.

travessia pelos Lençóis Maranhenses

Para baratear o passeio, conseguimos juntar mais quatro mineiros que estavam hospedados em outra pousada de Santo Amaro (ao todo, pagamos 600 reais aos nossos guias). Era nosso último dia nos Lençóis. De Atins, pegaríamos um barco para Barreirinhas, onde passaríamos a noite. Em seguida, iríamos para Tutóia e de lá para Parnaíba, no Piauí, nosso próximo destino, onde faríamos uma reportagem sobre a Casa das Rendeiras.

o sombreado das nuvens confere um espetáculo à parte ao lugar

Definitivamente o ponto alto da nossa viagem, cruzar os lençóis foi emocionante. Impressionava que nosso guia conseguisse se localizar no meio daqueles montes de areia e soubesse nos apontar as lagoas, mesmo estando secas, com precisão. A visita aos Lençóis não foi feita na melhor época, pois dezembro é época de seca e 90% das lagoas estão sem água. Quem já viu imagens das lagoas dos Lençóis entende o motivo desse lamento.

As lagoas estavam em sua maioria assim e o guia sabia nomear todas elas.

Porém, não tinha como ficar menos impactada com o espetáculo que presenciamos. Apesar de muito quente, o céu estava carregado de nuvens e foi justamente a intromissão delas que conferiu à paisagem sua magnitude. Imagine montanhas de areia branquinha para todos os lados, diversas camadas de montes e nuvens correndo ao céu em enorme velocidade projetando sombras sobre essas camadas. Os minutos passando e os montes mudando de tom gradualmente.

clique na foto para ver o vídeo com mais imagens dos Lençóis Maranhenses

Impossível contemplar aquela imagem sem ouvir música. Não estou dizendo que levei meu Ipod – eu nem tenho Ipod- a música brotava de dentro, provocada pela dança das sombras e do vento sobre os grãos de areia. Interrompi a viagem inúmeras vezes para filmar e fotografar a cena. Queria levar um pouquinho daquela sensação comigo. Foi a primeira vez que eu usei essa câmera e o resultado do vídeo pode ser conferido aqui (não consegui incluir o vídeo no post).

O que parecia ter sido suficientemente belo estava longe de se esgotar. Chegando em Atins, perdemos o barco que nos levaria para Barreirinhas por questões de minutos. Eu e minha companheira de viagem ficamos chateadas porque perderíamos um dia de Parnaíba, pelo nosso planejamento inicial.

Algo que aprendi por lá é que os maranhenses tem um coração enorme, que só tive como comparar aos mineiros. A dona da pousada que descolamos improvisadamente para passar a noite em Atins (eram 15h30 e o próximo barco sairia na manhã seguinte apenas), testemunha da nossa aflição, descolou uma carona para a gente num barco de pescadores. Seu irmão era pescador e acabara de passar cinco dias à deriva no mar. Agora ele e seus companheiros de pesca estavam voltando para casa.

Seu Paulo, o pescador que nos deu carona até Barreirinhas

E foi assim que eu e Laura nos vimos, minutos depois, dentro de um barco de pescadores atravessando o Rio Preguiça, com direito a pôr do sol e conversas filosóficas com os pescadores sobre a vida, o amor, a saudade e o tempo. Nenhum deles conhecia o Caymmi. Mas eram todos dotados daquela sabedoria de quem abraça o tempo com tranquilidade, observando as águas, num estado quase meditativo de contemplação da vida.

a simplicidade do olhar de Seu Paulo - travessia pelo Rio Preguiça

Eu mal podia acreditar naquela vivência, só pensava em como seria ter aquela vida, passar cinco dias à deriva com frequência, longe do convívio com a família, os amigos, a terra. Queria ter um jeito de entrar na cabeça daqueles quatro homens, então agarrei num papo com seu Paulo pra ver se aprendia algo com ele. “Meu negócio é pescar, minha amizade é com o mar”, discorria ele sobre a escolha de ser pescador.

Rio Preguiça

Achei curioso o jeito como definiu a diferença entre a terra e o mar. “Eu acho o mar mais perigoso que a terra, porque o mar não tem cabelo. Porque se acontece alguma coisa aqui no mar e a água leva a gente, não tem onde se agarrar. Na terra, tem. Se uma chuva leva a gente na enxurrada, a gente pode agarrar um galho, uma raiz. O mar é mais difícil pra gente”.

nosso trajeto pelos Lençóis Maranhenses e Rio Preguiça está marcado em roxo no mapa

~ por Maíra em fevereiro 12, 2010.

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