surdo sem língua é surdo sem voz

E lá estávamos nós a caminho de Santo Amaro, um pequeno pedaço de paraíso situado nos Lençóis Maranhenses. Nossa passagem de São Luiz para os Lençóis incluía uma baldeação em Tutóia, onde pegaríamos carona com uma Toyota para atravessar 3 horas de estrada de terra – ou talvez fosse melhor dizer de areia – até chegar ao nosso destino final.

Laura, Bie e Lee, minhas companheiras de viagem, sentaram-se na fileira do meio e eu acabei no banco de trás da Toyota, com dois homens sentados ao meu lado, na outra ponta. Minha vista era privilegiada, de modo que comecei a filmar a estrada. O rapaz ao meu lado parecia ser da região e notei que estava curioso. Mesmo havendo o espaço de um lugar entre nós, passei a mostrar a ele o que estava fazendo. Foi então que percebi que ele era surdo. Eu tenho um certo radar para surdos, é impressionante, e sempre que encontro um, logo comemoro a possibilidade de treinar Libras. No entanto, não adiantou muito, ele não conseguia entender nada do que eu lhe dizia. Nem mesmo o singelo “qual o seu nome ou qual é o seu sinal?” (os surdos se batizam com sinais para não precisarem soletrar seus nomes a cada identificação).

Ele estava acompanhado de um senhor que era amigo de família e que me revelou seu nome: Domingos. Eu comecei a gesticular com toda força, acreditando ser possível que ele compreendesse ao menos minhas intenções.

Aqui cabe uma explicação. Mais importante que o sinal em si, a comunicação com o surdo se faz principalmente pela expressão facial e corporal. Ao fazer uma pergunta, por exemplo, é ideal que se faça cara de interrogação. O sinal para bonito, lindo e maravilhoso pode ser o mesmo, a intensidade do gesto ao fazer o sinal é que mostra o grau de beleza que o surdo quer comunicar. Sim, as caras e bocas que os surdos fazem são próprias da língua de sinais e eles explicam que se comunicar com um surdo de outro país é muito fácil porque mesmo que os sinais sejam diferentes, as expressões são sempre as mesmas e elas é que são a base da comunicação.

Assim, repeti para Domingos meu sinal várias vezes e devolvia-lhe a pergunta: qual o seu sinal? Mesmo assim, nada. Ele não sabia dizer quem ele era?

Não quis saber de regras, decidi batizá-lo com um sinal. Pela cultura, geralmente um surdo que é autor do batizado. No entanto, naquele momento fiquei me indagando quantos surdos passaram pela vida de Domingos. Ou melhor, quantos surdos com libras fluente ele conheceu? Será que ele não tinha mesmo um sinal ou simplesmente tinha tão pouco contato com pessoas surdas que nunca se comunicava em sinais? Ele não fazia nem mesmo mímica, apenas me encarava com os olhos arregalados.

Mostrei a ele o sinal de “domingo” e disse-lhe que aquele era seu sinal. Repeti inúmeras vezes meu sinal e em sequência o dele. Parecia aquela conversa: “Me Jane! You Tarzan!”. Com muito custo e sem nenhuma intimidade com o gesto, consegui que ele repetisse o sinal de domingo, agora significando “Domingos”. Duvidei que tivesse compreendido o que acabara de acontecer.

A viagem foi longa, eu desisti de me comunicar com Domingos, aceitando que era muito provável que aquele rapaz pouco ou nunca tivesse tido contato com a língua de sinais e dificilmente teria pisado os pés dentro de uma escola. Como será que elabora seu pensamento e sentimentos se não há palavras nem sinais para simbolizar o mundo?

Passei as longas horas seguintes da viagem um tanto desconfortável, Domingos cravou os olhos em mim e nunca mais desviou o rosto. O cenário em volta ia escurecendo e minha visão periférica reconhecia aqueles globos brancos com dois pontos pretos e arregalados me inspecionando. Aos poucos ele ia escorregando para meu lado, embalado pelos saltos provocados pela estrada esburacada. E eu não tinha como dizer para ele: será que você pode, por favor, voltar para o seu lugar? Ele não me entendia em sinais e não podia me ouvir. Paciência, o jeito era esperar o tempo passar. Eu não tinha como resolver seu isolamento do mundo numa viagem de três horas. Ele era mais um surdo que passaria por mim apenas para me confirmar uma realidade dura de que eu já notícia.

Seu Cido

Não foi a primeira vez que encontrei um surdo com esse grau de exclusão. Surdos sem língua própria. Em 2008 eu estava em Monte Verde caminhando pela cidade quando adentrei um bairro pobre para um passeio. Fotografei crianças a caminho da escola e algumas casas, quando conheci seu Cido. Descobri seu nome através de uma vizinha, pois seu Cido era surdo e também não tinha língua própria.

Seu Cido me inquietou, pois gesticulava, mas era incapaz de compreender meus sinais. Também não soube me dizer qual era seu sinal.

Consegue imaginar o que é viver sem uma língua própria? Sem vocabulário? Seu Cido está muito mais excluído do que uma pessoa que não sabe escrever ou falar. Deve se comunicar apenas através de mímica,mímica que é possível que apenas sua mãe entenda (eles moram juntos). Aliás, como será que ele entende a ideia de mãe? Na época, deixei Monte Verde me perguntando como um surdo como seu Cido concebe seus pensamentos se não há palavras – ou sinais – definidos em sua mente. O quanto deixa de compreender do mundo por não ter conceitos esclarecidos? Será que entende o conceito de mãe? Será que entende a saudade?

Lisongeado, seu Cido se emocionava com as fotografias que eu tirava dele e mostrava pelo visor da câmera. Foi ele capaz de explicar a alguém o que foi o encontro que tivemos?

Maria e sua família

Por fim, lembro-me da vez que conheci duas irmãs surdas que moravam no Canal do Anil, uma favela do Rio de Janeiro. Foi em 2007, eu estava aprendendo sinais e de repente podia praticar a língua durante a cobertura de uma reportagem para a Agência Virajovem. Porém, eu ainda pouco conhecia do universo da surdez e lembro que senti uma dor no coração quando percebi que as duas irmãs não sabiam responder minhas perguntas. Não sabiam porque não entendiam que língua era aquela.

Era minha primeira experiência com surdos sem língua própria. Elas pelo menos entenderam quando quis saber seus nomes. Maria soletrou seu nome para mim. Com um alfabeto de mãos que eu não conhecia, que não era da Língua Brasileira de Sinais. Era meio tosco, parecia brincadeira de criança imitando as letras com os dedos. Depois eu descobri que se tratava de um alfabeto criado por presos. Maria, que era casada com um senhor ouvinte e mãe de uma garota também ouvinte, se comunicava com sua família com pura mímica e um pouco desse alfabeto. Sua filha era quem me respondia às perguntas. Maria não teve acesso à educação, mas sabia soletrar seu nome e certamente conhecia muitos ex-presidiários.

Essas experiências continuam rondando meu imaginário.

E hoje soube que o curso de fotografia que começarei a lecionar no MAM a partir da semana que vem já tem 30 surdos inscritos e mais 20 na lista de espera. Fico imaginando que tipo de surdo frequentará as aulas. Será que são alfabetizados, entendem português? Será que sabem sinais? Eu espero que minimamente saibam sinais, mas estou ciente que tudo pode acontecer. Sei que em São Paulo há um pouco mais de oportunidade e informação, as famílias inserem seus filhos surdos no sistema educacional. Bom, eu ensino fotografia para jovens de Paraisópolis e muitos têm uma dificuldade enorme com português. Sem nenhuma deficiência, são resultado do fracasso educacional desse país. Ainda assim, estão em São Paulo e portanto pressupõe-se que estejam mais bem servidos. Da mesma forma que um surdo daqui tem mais chances de inserção que um que vive nos Lençóis Maranhenses…

Há um frio na barriga. Como será lidar com essa diversidade toda? São tantas as realidades dentro da comunidade surda. Surdos fluentes em língua de sinais ou pouco íntimos da língua. Surdos oralizados (com ou sem sucesso) e sem conhecimento de sinais. Surdos com vários graus de compreensão do português e até com zero de alfabetização. Surdos com escolaridade atrasada e outros graduados. Terça que vem será desenhado esse panorama. Espero que o curso possa trazer a público um pouco da história deles. Que eles se representem e reflitam sobre sua realidade a partir da produção de imagens. Que ocupem esse espaço.

~ por Maíra em março 12, 2010.

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