diário da dona gorda

Essa semana dei início a um novo projeto, montei um blog para a minha avó, que está com 95 anos e não para de escrever.

Faz tempo que eu sinto vontade de escrever sobre a história da minha família. Meu avô adorava falar sobre sua vida, pena que nunca tive a chance de escutar até o fim. Quando chegava lá pelo terceiro filho ele perdia o fôlego, dizia que continuaria o relato num outro dia, mas na vez seguinte sempre recomeçava do princípio. E era tudo tão fascinante que não me importava escutar tudo de novo.

Eu já estudava jornalismo e lá no íntimo me questionava quando teria coragem de registrar e tornar pública sua biografia. De assumir esse compromisso, quero dizer. Algo me impedia de abraçar o projeto, acredito que era insegurança misturada com uma sensação de que jamais seria capaz de reproduzir o estilo de fala de meu avô, alagoano. Eu gostava muito de escutar expressões, gírias, ditados populares próprios de sua terra e isso era muito comum na fala dele, de minha avó e meus tios. Não era meu jeito de falar e não saberia escrever com aquele estilo. Se fosse para publicar sua biografia, queria que fosse com o estilo dele.

Esse ano comecei a fotografar minha avó depois que meu avô faleceu. Meu avô se foi, eu aceitei bem sua partida, no entanto fiquei com uma dor de não ter realizado o que teria sido um belo projeto de resgate das minhas origens.

Até que minha avó começou a se referir ao diário dela. Eu passei a fotografá-la, a perguntar-lhe sobre o passado e ela me dizia que não tinha porque me dizer o que já estava no papel: “eu já tenho tudo isso escrito, minha filha, é só ler meu diário”.

Essa semana eu fui visitá-la e me deparei com um caderno de mais de 200 páginas que ela começou a preencher com causos e pequenas histórias desde fevereiro. Algumas eram fictícias e outras eram baseadas em histórias reais que ela testemunhou. Muito bem humoradas, bem escritas. Eu li alguns e fiquei rindo. O detalhe foi que ela ganhou o caderno no começo de fevereiro, disse que não sabia se daria conta dele e já estava todo preenchido. Foi então que tive um estalo e pedi autorização para montar um blog para ela.

Eu não precisava escrever a história dos meus avós, isso já estava sendo feito por minha avó! Tão óbvio que eu passei o começo da semana rindo de mim: como não matei a charada antes? Seria o melhor jeito de contar a história deles e ainda preservando o estilo que eu tanto queria reproduzir.

Assim nasceu o Diário da Dona Gorda, o blog com as Memórias da Vovó Dina, minha avó. O melhor de tudo foi descobrir que minha tia já estava passando tudo para o computador, pois a família tem vontade de tornar isso um livro futuramente. Então eu insisti que publicar um blog seria o primeiro passo para viabilizar essa publicação. Para minha avó, uma ótima maneira dela receber o retorno das pessoas da família e dos amigos que não têm o privilégio de visitá-la e folhear seus cadernos com frequência.

Ontem, segundo dia do blog, recebemos 180 visitas e muitos comentários. É emocionante a pureza de seus textos, estou cuidando de revisá-los e publicá-los aos poucos. O que me emociona é que meu avô terá sua história contada também, afinal eles se conheceram com 8 / 9 anos de idade e conviveram intensamente até o início desse ano, quando ele foi embora.

~ por Maíra em maio 15, 2010.

2 Respostas to “diário da dona gorda”

  1. ótimo!! super anciosa pra ler (:

  2. Muito bom o post amei vou sempre visitar seu blog !!

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