outras Amazônias

Minha passagem pela Amazônia não teve direito a passeio de barco, visita a aldeias indígenas ou comunidades ribeirinhas. Vi muito do lado urbano e entrei em contato com outras Amazônias, uma delas é aquela que é vítima da selvageria humana.

Na segunda etapa de nossa viagem, que teve passagem pelo Acre, Rondônia e Pará, visitamos Jaci-Paraná, distrito de Porto Velho onde está sendo construída a Usina Hidrelétrica de Jirau. O cenário na cidade é desolador. Vê-se muita miséria, aumento de violência e de doenças (pelas notícias, desde o início das obras, houve crescimento de mais de 60% dos casos de malária no distrito).

Morador de Jaci-Paraná que estava com malária

Um giro rápido pelas ruas de terra do bairro e nos deparamos com caminhões recheados de toras gigantes de madeira. Caminhões sem placa. A presença de madeireiras na região é forte, muitas são regularizadas, têm CNPJ e tal, mas isso não significa que não tenham atividades ilegais de extração de madeira.

Fotografei o movimento ilegal dos madeireiros e rapidamente notamos a presença de um motoqueiro dando voltas no quarteirão para nos “checar”. Batatinha, nosso motorista, explicou: “Fique tranquila, eles checam a placa do carro com o Detran e quando descobrem que não é do IBAMA nem da polícia, sossegam. Pode fotografar à vontade”. Dito e feito, nada nos aconteceu, ninguém nos abordou.

Transporte ilegal de madeira em Jaci Paraná - se fosse legal teria placa no caminhão, é ou não é?

No dia seguinte, seguimos viagem para Ariquemes, a 200km de Porto Velho. No caminho pela BR-364, passamos por várias áreas alagadas pela Usina Hidroelétrica de Samuel, grandes bolsões de água que cobriram trechos enormes de terra. Vinte anos depois ainda vemos o topo do que restou das árvores que ficaram afogadas pelas águas do rio. Muito triste de se ver.

Batatinha, que por sinal entende tudo da região, é uma enciclopédia ambulante, contou que os proprietários das terras alagadas foram indenizados. Mas quem indeniza os índios, o rio, os peixes e animais mortos em consequência do “avanço” tecnológico que trouxe energia para Porto Velho? De que adianta indenizar meia dúzia de proprietários se quem perde é toda a humanidade e, mais importante, o planeta?

Por sinal, as “obras de compensação” por aqui são uma piada. Outro dia Batatinha nos mostrou o Porto Velho Shopping, único na cidade. Feio e gigante como todo shopping, a atração foi construída por um grupo de canadenses aposentados e custou nada menos que uma nascente do Rio Madeira – que hoje é um esgoto. Para “compensar”, os canadenses construíram o Parque da Cidade, que ocupa uma quadra atrás do Shopping (!)

~ por Maíra em junho 5, 2010.

2 Respostas to “outras Amazônias”

  1. Muito bom Ma… É aí que a gente vê como a Amazonia é grande e descuidada…
    Esse teu relato confirmou pra mim o q escrevi sobre Belo Monte lá no http://pirex.com.br/2010/05/08/por-que-belo-monte-e-uma-pessima-alternativa/

    bjs

    • pois é, Leo, lembrei muito do seu post durante a viagem. Me surpreende quem se entusiasma com o avanço do “desenvolvimento” e ignora o sofrimento da população e os estragos ambientais… e não estou me referindo a políticos.

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