A visualidade da surdez

Essa semana darei uma oficina de fotografia aos jovens do ITAE e da Casa Escola, durante o Paraty em Foco, que começa amanhã.

Em paralelo, os amigos do coletivo Garapa, que estão editando o blog do evento esse mês, me convidaram para publicar um relato sobre minha experiência com o Foco em Libras. Reproduzo o texto abaixo:

A visualidade da surdez

Na onda de ótimas colaborações para o blog, convidamos a fotógrafa Maíra Soares, que realiza oficinas de fotografia para surdos, a relatar um pouco da sua experiência nessas atividades.

Foto: Marcela de Andrade

Eu me lembro bem daquela noite em que, navegando pela rede, caí no site do Fotolibras, um projeto que ensina fotografia para surdos de Recife. Algo de mágico aconteceu, como se eu descortinasse uma cena futura e espiasse o que estava por vir. Fazia pouco tempo que tinha descoberto que meu sobrinho mais novo, na época com quase um ano, tinha nascido surdo.

Curiosamente, não que eu acredite em coincidências, muito pelo contrário, exatamente no mês em que o Jay nasceu, em setembro de 2006, eu comecei a fotografar para uma ONG que trabalhava pela inclusão de pessoas com deficiência. Foi lá que eu comecei a estudar Língua Brasileira de Sinais por pura curiosidade e quando soube da surdez do mais novo membro da família, senti-me motivada a conhecer melhor a cultura surda.

Foto coletiva.

Quanto mais contato eu tinha com os surdos, especialmente os que se comunicam por sinais, mais eu me encantava com a sensibilidade visual deles. Para quem não sabe, a língua de sinais não tem nada a ver com o português sinalizado – tampouco é universal como muita gente acredita, cada país tem a sua e cada região tem suas gírias e expressões próprias, como acontece com todas as línguas. Ela possui uma sintaxe e gramática próprias e é considerada uma língua espaço visual, que muito se assemelha à linguagem do cinema. Como assim? Desse jeito: se precisamos dizer que “o gato comeu o rato”, primeiro sinalizamos o rato entrando em cena, depois o gato se aproximando e em seguida fazemos o gesto indicando que o gato comeu o rato.

Outra característica que a determina é o uso da expressão facial. Na língua de sinais, expressar facialmente o que está sendo dito é fundamental para garantir a comunicação. Uma pergunta tem que ter cara de interrogação, da mesma forma que confundo meu interlocutor se sinalizar a tristeza com um sorriso nos lábios. Por essas e outras surdos de países diferentes se comunicam e assimilam a língua um do outro com muito mais rapidez que nós reles ouvintes*.

Foto: Isadora Borges, Luana Nascimento, Rose de Sena e Sabrina Ribeiro

Como fotógrafa, eu tentava imaginar o poder que a fotografia teria para os surdos, por terem uma orientação mais visual do mundo – nesse ponto quero dizer qualquer surdo. E mais do que isso, como ouvinte eu sentia que compreendia tão pouco o universo deles que ficava procurando ensaios fotográficos sobre o tema. Será que alguém já tinha se aventurado a decifrar o mundo deles fotograficamente? Aliás, se alguém souber de algo, adoraria que me indicassem.

Quando descobri o Fotolibras, fiquei com vontade de fazer algo parecido em São Paulo. Nada mais natural que os surdos falarem de si mesmos através de imagens produzidas por eles. Até mesmo a barreira linguística entre surdos e ouvintes poderia ser rompida pela fotografia, sendo ela um meio de comunicação universal. Não preciso entender a língua do fotógrafo para que a imagem dele me toque.

Foto: Isadora Borges.

Esse ano comecei a dar aulas para surdos no MAM, junto com a fotógrafa Karina Bacci, que me ajudou a elaborar o projeto Foco em Libras, que faz parte do Programa Igual Diferente do museu. O curso é gratuito e abre espaço para alunos ouvintes que tenham interesse por Libras ou proximidade com a comunidade surda. Ao todo, somos duas educadoras ouvintes, um educador surdo e dois intérpretes de Libras, o que garante a acessibilidade para os usuários de sinais.

É um desafio constante, estamos aprendendo na prática a melhor forma de passar aos alunos o conteúdo do curso, nem todo vocabulário fotográfico existe em sinais. Algumas situações são inusitadas, como as aulas de light painting, que foram dadas no escuro do auditório. Como nos comunicaríamos com as luzes apagadas?

Foto: Luana Nascimento.

No entanto, é quando discutimos a intencionalidade por trás ato fotográfico e como podemos expressar o que sentimos ou contar nossa história através da fotografia que sinto que estamos tocando no ponto crucial. O que quero comunicar e como posso fazê-lo através da fotografia? E o que dizer da surdez para o mundo, sobre como é ser surdo?

Essas provocações surgem ao longo do semestre e instigam eles a buscarem sua forma pessoal de expressar o que sentem e de reinventar o mundo visualmente. Com todas as vantagens que o silêncio os proporciona.

* Um panorama muito rico e intrigante sobre a cultura surda é dado por Oliver Sacks em seu livro Vendo Vozes – Uma viagem ao mundo dos surdos.

~ por Maíra em setembro 15, 2010.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: