eu sei que você sabe que eu sei que você sabe

Desde o jardim da infância até a oitava série eu estudei num colégio integral. Entrava às sete da manhã e ficava até o cair da tarde, depois de jantar. Eu me lembro da sensação de me sentir gente grande quando na sexta série ganhamos uma tarde livre por semana. Eu e meus amigos andávamos sete ou oito quadras até o Shopping Ibirapuera e achávamos o máximo tamanha liberdade. O programa preferido era ir ao cinema, mas tenho boas lembranças do trajeto até o shopping, caminhar pelas ruas da cidade me trazia um leque de novidades. Eu não tinha esse hábito longe do bairro onde morava, na zona sul, muito menos sozinha.

Conheci Magnólia em 2001, durante um workshop com João Wainer no Jardim Pantanal. Ela estava grávida e tinha 19 anos. Eu era dois anos mais velha, porém nunca tinha mirado o espelho com essa expressão no rosto. O que teriam visto seus olhos para trazerem esse semblante? - São Paulo, 2001

Na sétima série nos deram duas tardes livres e na oitava, três. Como meus pais trabalhavam o dia inteiro – motivo pelo qual fui parar nessa escola – eu comecei a ir para casa de ônibus sozinha. Não sei ao certo como foi que começou, imagino que minha irmã tenha me introduzido ao transporte coletivo, me ensinado as linhas disponíveis, como pedir para o ônibus parar e tal, só sei que comecei a me relacionar com o mundo de outra forma. Ficava atenta a tudo e a todos, sacando o movimento, o humor, o jeito das pessoas.

Lembro de uma vez ter pego um ônibus que tinha acabado de ser assaltado e de ter escutado relatos de pessoas sobre os pertences perdidos, o susto que levaram. A partir desse dia eu passei a colocar meu relógio de pulso no tornozelo antes das viagens e tinha verdadeiro orgulho da minha esperteza. Eu começava a adquirir a malícia dos grandes centros urbanos, desnecessária até então no meu mundo infantil e protegido de quem passava o dia inteiro na escola particular e só andava de carro.

Brás - São Paulo, 2001

Lembro também que eu passava um bom tempo tentando decifrar o mundo e criava enredos das vidas das pessoas na minha cabeça. Olhava para uma mulher de cara mais triste e imaginava que estava sentindo falta de seu filho, que tinha sido maltratada pelo marido e que estava cansada das viagens longas de casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Mirava um senhor de muitas rugas, com uma sacola de plástico entre os dedos e me perguntava: de onde será que ele veio? Em que parte da cidade ele vive? Será que tem família aqui ou vive sozinho? Será que tem uma casa aqui ou está de passagem? Qualquer fala, movimento ou situação nova me introduziam mais detalhes e eu podia reescrever suas histórias na cabeça. Às vezes vencia minha timidez e conversava com um ou outro estranho. Eu chegava em casa engrandecida, como se o mundo tivesse me presenteado com mais pistas para compreendê-lo.

Nessas viagens comecei a ver com frequência garotos com roupa rasgada e suja saltarem a roleta ou passarem por baixo dela para depois iniciarem um discurso entristecido sobre o quanto a vida estava difícil e que precisavam ajudar a mãe e os irmãos… Eu ficava imaginando: será que vão pra escola? Tem mesmo uma família ou vivem na rua? Será que esse tá doido de cola? Eu tinha uns 11, 12 anos.

O trajeto até minha casa durava quase meia hora. Na época ainda existia a Favela do Buraco Quente e o ônibus cortava ela num trecho para seguir caminho até meu bairro. Era um lugar perigoso, anos depois soube que era um ponto forte de tráfico de armas, não apenas de drogas como eu supunha na época. Não me lembro de situações em que senti medo de cruzar aquele pedaço. Eu sabia que tinham moradores da favela no ônibus comigo e que alguns deviam estar envolvidos com o crime, mas sempre me senti segura, não sei explicar porque.

Janela da alma, espelho do mundo. Os olhos são verdadeiras portas de entrada ao mundo interior das pessoas. Mercado Municipal - São Paulo, 2001

Eu gostava de observar as pessoas, e sempre que possível mirava seus olhos. Uma parte em mim acreditava que não importava de onde eram e nem para onde iam, se nos olhássemos nos olhos a fundo nos compreenderíamos de alguma forma. Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que é difícil de dizer… o indizível, um trocar de olhares apenas seria suficiente. Anos depois eu descobri o termo “janela da alma”, que Maria Rita Kehl descreve como a idéia de que o olhar coloca nosso interior para o mundo exterior. Era exatamente aquilo que eu sentia, que o olhar daquelas pessoas as traduzia para mim.

minha bisavó Tininha numa casa de repouso aos 98 anos - São Paulo, 2003

De algum modo eu acredito que durante essas viagens nasceu a Maíra fotógrafa. Para aquela garota que nada conhecia do mundo externo, que ia de casa para a escola dentro do carro, uma primeira fresta sobre a realidade se abriu. E aquilo me trazia paz, embora na época eu não percebesse a dimensão das mudanças sutis que surgiram desse novo hábito.

Como me fazia bem ter a rua, viver situações novas, ver gente de todos os tipos. O mundo na escola parecia tão distante de mim, eu sempre me senti descolada de tudo e de todos. Quando criança, ao final da tarde, eu tinha costume de pegar minha mochila e encostar num canto do corredor da recepção da escola esperando meu nome ser anunciado com a chegada da minha mãe. Ao final do dia os alunos ficavam jogando na quadra de esportes, nem para isso eu me animava. Não me sentia confortável com eles, algum desassossego morava dentro de mim e me fechava para o convívio.

D. Gioconda Rizzo, fotógrafa brasileira, aos 106 anos - São Paulo, 2003

Quando eu ganhei a rua, o mundo se expandiu e milhares de referências novas surgiram diante de mim. Se eu não me encaixava entre os personagens da escola, era bom saber que havia tipos tão distintos soltos por aí… eu já não me sentia tão mal por ser diferente.

Olhares marcados, rostos marcados... Praça Júlio Prestes, São Paulo, 2003

Depois que comecei a fotografar na faculdade vi que tinha nas mãos a possibilidade de entrar na casa das pessoas que me fascinavam. Finalmente eu teria pistas concretas de outras realidades e poderia desenhar o enredo de suas vidas com mais precisão. Foi assim que me apaixonei pela fotografia. Cada personagem que passava por mim me oferecia um ponto de vista particular e aos poucos eu encontrava eco para meus gritos internos, de origem desconhecida, tão abafados pelo incômodo sentimento de me sentir estrangeira para os outros.

~ por Maíra em fevereiro 3, 2011.

2 Respostas to “eu sei que você sabe que eu sei que você sabe”

  1. Lindo!!! Incrivel como descobrir a realidade dos outros nos faz enteder melhor a nossa! E a surpresa de descobrir como se sentia na escola, me faz pensar… em vc, em como te via, e em mim… como atraves de certas diferencas existem muitas semelhancas.

    beijocas

    • hehe, falamos disso quando eu for te visitar. sim, vocês me conheceram muito pouco, eu me mostrei muito pouco quando estudava no ceb… esse texto surgiu de um exercício aqui do master, não tinha feito essa leitura sobre essa época assim ainda.
      bjão!

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