Madrid – capítulo um

Que dizer dessa cidade?

Palácio Real, Madrid

É viva. A primeira impressão depois que fiz as pazes com ela. Cheguei em Madrid com o pé esquerdo. Era véspera de ano novo, 4 da tarde, quando aterrissei na Espanha. Minha primeira viagem à Europa, minha primeira despedida do continente americano se dava aos 30 anos. Depois de alguma semanas turbulentas de preparo de viagem, dúvidas internas – não sabia mais se teria sentido passar um ano na Espanha – estava embarcando no aeroporto após horas de conversa com meu irmão no aeroporto internacional de São Paulo. Minha família passava por uma verdadeira tormenta emocional e lá estava eu me despedindo de todos num momento muito difícil, insegura da minha decisão de seguir meus planos pessoais.

Onze horas para chegar a Madrid foram tempo suficiente para folhear o guia Lonely Planet que ganhei de presente da minha melhor amiga em busca de um restaurante para fazer minha ceia sozinha. Seria uma noite simbólica. Eu tinha amigos morando em Madrid, mas nenhum deles estava na cidade quando cheguei, eu sabia que estaria por mim mesma na virada do ano. Minha meta era encontrar um lugar charmoso para comer e quem sabe conhecer alguém, um grupo de amigos.

Decidi ir para Bilbao. Deixei as malas na casa de uma amiga que estava em Barcelona e corri para o metrô. Em Bilbao, tudo fechado. Eu me sentia sem graça por ter imaginado que a véspera do ano novo seria uma noite como outra qualquer em outras cidades grandes que não São Paulo. Eu ainda me depararia com muitas diferenças culturais para coisas que eu nunca imaginei que poderiam ser de outra forma. Um pouco da graça de morar fora está nisso. Um pouco do perrengue também.

Obrigada a improvisar, caminhei até meu destino final: Puerta de Sol, a praça central da cidade onde tradicionalmente uma multidão se reúne para comer 12 uvas à meia-noite. No caminho encontraria um restaurante, pensei, era sexta-feira à noite, só que quanto mais eu andava mais desconfiava que estava enganada. Acabei comendo um “Pedaço de Pizza” perto do metrô Tribunal e desci a Calle Fuencarral a pé. Eu sempre estou disposta a reinventar meus planos, mas decididamente tive que me esforçar para manter o bom humor ao encarar minha ceia de ano novo. Eu ainda estava baleada do cansaço e da alergia que peguei do ar condicionado do avião.

Na Praça Puerta de Sol, uma multidão de gente. Descobri um café aberto e pedi uma cerveja. Torci o nariz ao ver a galera fumando dentro do café – no dia seguinte começou a lei anti-fumo dentro dos bares, para minha felicidade. A cerveja não foi uma boa ideia, acentuou o sono provocado pelo antialérgico e eu já olhava o relógio impaciente. Ainda são 22h?

Sim, como de costume fiz alguns amigos e me convidaram pra comer uvas na praça com eles. Quando me vi no meio daquela multidão mais apertada que a última Parada Gay de São Paulo que consegui ir me senti… velha. Eu não tenho mais idade para isso, pensei. Me despedi da turma e sumi de cena. Era quase meia noite quando sentei num banco de praça e fiquei observando a cidade à noite, numa esquina movimentada de muitas luzes. Minha primeira noite em Madrid, a última noite do ano. Meu primeiro ano morando em outro país, longe da família, dos amigos, do centro de São Paulo, das rodas de samba. Uma sensação forte de vazio, um vazio que não era tristeza e sim de total falta de ideia do que aconteceria a partir de então. Um vazio instigante, assustador e animador ao mesmo tempo. Nada seria como antes, eu estava livre para desenhar meu caminho como bem entendesse e para experimentar tudo o que potencialmente aquela viagem tinha para me oferecer.

2011 seria um ano todo dedicado a mim, a investigações pessoais, a me conhecer melhor distante de minhas referências culturais, do contexto familiar, do conforto de saber os percursos possíveis para chegar onde eu queria. Eu teria que descobrir como participar daquele novo mundo, o velho continente, revendo meus conceitos, meus sonhos, meus jeitos, observando o modo de vida daqui. Seria o tempo de rasgar meu caminho e fechar as feridas, como diria o Paulinho da Viola. Tempo de me rever, respirar fundo e reconstruir.

Nessa hora eu desci para o metrô. Estava muito feliz de estar lá e já tinha combinado que passaria o ano novo sozinha, estava muito tranquila. Passei a virada embaixo da terra. As estações estavam desertas e eu explorava as linhas de metrô daquela que passaria a ser minha cidade, sem ter ideia para onde elas iam, do que estava em cima dela, sem ter ideia de qual estação seria a mais próxima da minha nova morada.

Em casa abri uma cerveja e brindei meu ano novo. Uma página em branco que eu preencheria a partir daquele momento.

à procura de mim no parque do retiro

Na primeira semana em Madrid encontrei um quarto pra alugar em Gran Vía, no centro da cidade. Eu estaria cercada por cinco linhas de metrô, do lado de uma praça, com várias lojas que comics, uma região de putas, chinos e gays. Muito similar à diversidade que eu encontrava morando na Roosevelt, ainda que bem diferente. Eu dividiria com uma espanhola – uma das metas da viagem é aprender espanhol -, estudante de arquitetura, que adorou a ideia de morar com uma brasileira pois assim teria contato com uma cultura nova e aprenderia um pouco de português.

Na manhã seguinte peguei um trem e fui a Barcelona encontrar meus amigos. Todos me diziam que eu não me acostumaria com Madrid depois de ter visto a tão esbelta Barcelona. Claro que me apaixonei pela cidade praiana e por uns dias senti temor de não me acostumar com a Madrid que me fechou as portas logo de cara.

Só que Madrid me enfeitiçou logo que voltei e fiz as pazes com ela. Caminhando pelo centro, fui cativada por seus cafés, suas ruas estreitas, seus prédios cheios de sacadas, suas praças, o Palácio Real, as luzes à noite, a quantidade de pessoas circulando. Madrid tem vida. Como diria um cara de Valência que conheci outro dia, “Madrid tiene alma, tiene magnetismo, es una ciudad que te atrapa”. Ele também me alertou que é uma experiência vital, porém isso deixarei para constatar no futuro.

~ por Maíra em fevereiro 22, 2011.

2 Respostas to “Madrid – capítulo um”

  1. Nenota! Mudar é dificil, outra vida se inicia..vc deu o primeiro passo e lá se foi a bela Maíra a viver em Madrid…besos y suerte!!!!

  2. Eu sou suspteita para falar. Madrid é muito especial mesmo. Tenho certeza de que este ano será muito intenso pra vc em todos os sentidos. Beijos!

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